quinta-feira, 18 de junho de 2015

Do Futuro nas Escolas


Pequena viagem, motivada por um desafio no fórum do projecto Programação no 1.º CEB. Começemos por uma imagem clássica e bem conhecida, uma das da série En L'An 2000 do ilustrador Villemard (as de Albert Robida são mais giras mas nenhuma versa sobre a forma como concebiam as salas de aula nos futuros imaginados na viragem do século XIX para o XX). É uma imagem que está na fronteira entre o humor e a ficção especulativa, note-se, apesar de ser usada hoje como uma antevisão futurista. Mas sentimo-la como pertinente porque faz sorrir enquanto meditamos numa certa intemporalidade do ensino e aprendizagem.


Saltemos 50 anos (En L'An 2000 vem de 1910) para as concepções de futuro especulativo que o ilustrador Arthur Radebaugh fez para Closer Than We Thinko seu comic semanal. São deliciosos exercícios gráficos de retro-futurismo e utopia tecnocrática dos anos 50, de estética googie (sim, isto é mesmo uma palavra, googlem, vão gostar). Esta é a imagem da sala de aula do futuro, anos 50. Também há uma que especula sobre a aprendizagem com meios electrónicos em casa.


Tem o seu quê de Khan Academy, não tem? Coloquem as crianças frente a um vídeo que elas aprendem. Interacção social é algo opcional...


Esta sala de aula do futuro vem do japão, anos 70, e não consigo estabelecer se é uma visão realmente de especulação ou humorista. Todo o contexto, uma edição da revista Shōnen Sunday dedicada ao admirável mundo novo trazido pelo futuro dos computadores, aponta para especulação informada, mas aquele robot a disciplinar o aluno mal comportado desperta sorrisos. Mas notem as imagens inseridas. Os alunos a falhar e acertar enquanto respondem a perguntas no ecrã descreve bem o software educativo interactivo que temos hoje. A iconografia é a mesma. Só se nota que a foto da rapariguinha de ar interessado a aprender frente ao computador não é actual porque, bem, é nítido que o computador é antigo. Hoje a menina estaria a sorrir olhando para um tablet. O Pinktentacle mostra todas as ilustrações deste retro-futuro potenciado pelo computador.


Já esta é uma daquelas imagens genéricas que encontramos quando pesquisamos sobre sala de aula do futuro ou computadores na educação. Esta. se não me engano, vem de uma  design fiction/flatpack future da Microsoft. Este, Future Vision 2020, creio. O futuro está sempre daqui a dez ou vinte anos nestas especulações corporate.

Conhecem bem estas iconografias, certamente. Salas de aulas com meninos sorridentes a olhar para o ecrã dos portáteis ou, agora, tablets. A clicar nos clickers, contemplando sorridentes os quadros interactivos. Abram um qualquer artigo sobre revolução educativa e a ilustrar vem uma variação deste tipo de imagens. São especialmente acarinhadas por editoras do mercado cativo educacional a querer vender manuais, ou vendedores de software e hardware sorridentes, que nos querem convencer dos enormes benefícios que teremos em adquirir os equipamentos que lhes atravancam os armazéns. Frequentemente recebo catálogos cheios de meninos sorridentes a interagir com equipamentos reluzentes para me convencer a investir dinheiro dos contribuintes a bem das aprendizagens, que, sabendo como sei que tecnologia sem visão pedagógica é tijolo digital, normalmente envio directamente para a reciclagem. Para o ponto azul, o do papel.

Reparem, há um padrão nestas imagens. Mostram visões contemporâneas, nas suas épocas, sobre o futuro da educação imaginado com o impacto dos meios tecnológicos. Mas penso que todas têm um ponto em comum: não conseguem fugir à passividade do aluno enquanto receptor de conteúdos, dando ou tirando um clique num botão ou uma rotação do mostrador do alimentador fonográfico de livros. Em boa parte deles o professor não tem necessariamente de ser humano. É apenas uma imagem num ecrã. Pode ser um actor a seguir um guião. Ou uma animação. Ou até, talvez, um robot.

Porque é que temos tanta dificuldade em escapar a este constrangimento conceptual, especialmente nos dias de hoje, em que abunda investigação de ponta sobre aplicação de tecnologias educativas que mostra o poder de abordagens pedagógicas activas, que apostam na autonomia e criatividade dos alunos, noutros modelos de sala de aula? Em parte, talvez porque funciona, a um nível elementar e introdutório. Também porque fomos ensinados e formados assim, e é-nos dificil sair de uma caixa a que fomos habituados desde pequenos. Se calhar porque os espartilhos do sistema educativo não nos dão muito espaço de manobra. E poder-se-ia continuar a enumerar razões.


Provocação final: que tal um photoshopzinho para meter uns tablets nas mãos destes atentos alunos escolásticos numa sala de aula do século XIII (Bolonha, 1233, mais especificamente)? Não seria assim tão diferente das iconografias futuristas/design fiction que mostrei anteriormente.

Bónus: deixo aqui um link sobre tecnologias educativas futuristas vindo do Paleofuture e outro da Wired, mais polémico, que nos força a reflectir precisamente sobre aquilo que queremos dizer quando dizemos que uma tecnologia trará mudanças de paradigma e revolucionará a aprendizagem: What Technology Will Revolutionize Education. Spoilers: vão adorar quando descobrirem que os videodiscos foram considerados uma tecnologia que iria revolucionar a educação. A partir do minuto 5:28 está o cerne da questão na discussão entre as valências da tecnologia e o papel do professor: "Why do we need teachers? Well, if think the fundamental job of a teacher is to transmit information from their head to their students, then, you're right, they are obsolete.(...) Luckily, the fundamental role of a teacher is not to deliver information, it is to guide the social process of learning". E nisto as tecnologias são uma ferramenta fantástica, mas não um fim em si mesmo.

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