quinta-feira, 7 de maio de 2015

Toda a Literatura é Fantástica: Cruzamentos entre cinema, tecnologia e literatura


Apontamentos para uma conversa com João Morales no Festival Livros a Oeste. A ideia era explorar algumas vertentes da Ficção Científica, usando o cinema como faísca e levando para os livros e tecnologia para alunos de nono ano. Muitos slides, como ponto de partida para conversas, e excertos do melhor que o cinema de FC nos deu para partilhar. Levei a minha mascote impressa em 3D. Era de rigueur.

Slide 1: Toda a Literatura é Fantástica: Cruzamentos entre cinema, tecnologia e literatura. João Morales e Artur Coelho

Slide 2: Para iniciar, mostrar o trailer do filme Ex Machina.

Slide 3: Este é um filme actualmente nos cinemas. Se calhar já o viram. Ainda não o vi, mas pelo trailer percebe-se que é uma história sobre um cientista que cria uma mulher artificial, incorporando o imaginário contemporâneo sobre robótica, andróides e tecnologia futurista.

Slide 4: Mas esta história é milenar. Tem origem possível no mito grego de Pigmaleão, o escultor/rei de Creta que esculpe uma estátua do seu ideal feminino. Esta é tão perfeita que se apaixona por ela, tendo os deuses a insuflado com a dádiva da vida.

Slide 5: É intrigante ver que a nossa contemporânea obsessão com vida artificial já vem da antiguidade clássica. Os deuses, dizia-se, eram servidos por autómatos, e a ilha de Creta era protegida por um gigante de bronze. A robótica avançada contemporânea mantém ecos distantes de algo que sempre esteve presente na cultura europeia. Sabe-se que os antigos gregos conheciam mecanismos, há relatos de animais mecânicos a deliciar os cortesãos nas cortes medievais arábicas e europeias.

Slide 6: Na época barroca Jacques Vaucauson legou-nos autómatos que ainda hoje, cuidadosamente preservados, persistem. Estas imitações de vida com movimentos restritos e mecanizados impressionaram os nossos antepassados. Vaucauson tornou-se o mais famoso mas não é caso único. Atradição de construir autómatos persistiu até ao século XIX. São objectos delicados, movidos a corda e engrenagens, que repetem as mesma acções até a energia contida nas molas de dissipar.

Slide 7: Deliciavam os nossos antepassados com a su estranha capacidade para escrever, desenhar ou emitir sons. Alguns pareciam questionar o próprio sentido da vida, parecendo animados de inteligência. É o caso do Turco Mecânico, um autómato jogador de xadrez capaz de bater os mestres do jogo, que na realidade era controlado por um anão escondido dentro da caixa dos mecanismos.

Slide 8: Algumas leituras: Sublime Dreams of Living Machines, de Minsoo Kang, uma história dos criadores de autómatos e suas criações desde a antiguidade até à época moderna; Alone Together de Sherry Turkle, uma análise sobre o impacto da internet e da robótica nas relações sociais; I Robot de Isaac Asimov, livro clássico de Ficção Científica sobre robots. Legou-nos a ideia das três leis da robótica.

Slide 9: Qual é aqui o papel da literatura? É lá que encontramos, postas em papel, as iconografias que animam a nossa visão contemporânea. E são bastante mais antigas do que se poderia pensar. No século XVII Jan Potocki descreve no seu romance fractal, Manuscrito Encontrado em Saragoça. É um romance daqueles em que uma personagem conta uma história que tem personagens que contam histórias cujas personagems contam histórias que.. bem, já perceberam, certo?. Descreve um castelo italiano enfeitiçado onde delicados autómatos servem deliciosas iguarias numa caverna de encantos.

Slide 10: Mais tarde Villiers De L'Isle Adam fala-nos da sua Eva do Futuro, um autómato que incorpora o ideal da mulher perfeita. E.T.A. Hoffman descreve no conto O Homem de Ariea Olympia, a mulher que deixa apaixonados quem a conhece e não sabe que é um autómato de cera e madeira. Faz parte dos Contos de Hoffmann, livro clássico da literatura fantástica. Leituras: Manuscrito Encontrado em Saragoça, Jan Potocki; Contos de Hoffman, E.T.A. Hoffman.

Slide 11: A Ficção Científica pegou em força no ideário do homem/mulher mecânico. É uma ideia incómoda, que arrepia perante a mitificação da imagem da mulher como boneca maleável aos desejos e comportamentos aceites pelo homem. O cinema apanhou a onda e legou-nos vários robots que se tornaram parte da iconografia da Ficção Científica.

Slide 12: Talvez o mais famoso é Maria, do filme Metropolis, encarnação da obsessão do cientista Rotwang numa cidade distópica do futuro.

Slide 13: Ex Machina é apenas a expressão mais recente destas obsessões milenares, com ideais masculinos de perfeição feminina e vida artificial. A sua estética replica bem a visão clássica para a Astounding Magazine, a ilustrar o conto Helen O'Loy de Lester delRey. Antigamente com o fogo da vida insuflado por deuses, hoje com o fogo prometeico da ciência.

Slide 14: Trailer de Frankenstein (1931)

Slide 15: Poderá o homem criar vida? Com o poder da ciência e a ferramenta da razão sobrepor-se ao antigo direito dos deuses? Esta ideia dá a faísca a Frankenstein, aquele que é considerado o primeiro romance de ficção científica. Esta é uma classificação discutível e difícil de atribbuir com precisão. As utopias e mundos feéricos da literatura europeia já andavam perto do que se veio a tornar a FC.

Slide 16: Olhamos para Frankenstein como algo saído do terror, um monstro, mas a história é sobre a obsessão e a culpa de um cientista que tentou insuflar vida com energia eléctrica matéria morta. É algo que nos parece pura fantasia, mas á época em que este livro foi escrito a electricidade, hoje tão banal, era uma descoberta recente e pensava-se que poderia reanimar mortos. É uma das muitas ideias científicas que a evolução da investigação científica veio a provar como falsas. Tal como a teoria da terra oca, que antes dos exploradores polares terem desbravado os pólos norte e sul parecia plausível imaginar que nos extremos da terra havia aberturas para todo um interior cheio de estranhas criaturas e requintadas civilizações. Ideias que na sua época eram tão válidas como as nossas correntes hipóteses científicas. Dá que pensar. Quais das nossas ideias de hoje, quais das premissas que aceitamos como inconstestáveis, serão no futuro vistas como quaint patéticas? Dá que pensar? Frankenstein distingue-se porque o monstro, a criatura, não é sobrenatural, é meticulosamente montada a partir do saber anatómico e eléctrico do doutor Frankenstein. Daí ser ese o primeiro romance que coloca a ciência, o seu saber, tecnologia e consequências no centro de uma narrativa. Pois é. O Frankenstein que imaginamos como Frankenstein não o é, realmente. Este é o nome do cientista. A sua criação não tem nome. Este romance intemporal foi escrito por Mary Shelley, filha da feminista Mary Wollstonecraft. Amiga do poeta Lord Byron, que teve uma filha chamada Ada Lovelace. Um nome fundamental para quem, como nós e vós, não consegue conceber o dia a dia sem computadores ou dispositivos computacionais. Leituras: Mary Shelley, Frankenstein.

Slide 17: Trailer de Ghost in the Shell.

Slide 18: O filme Ghost in the Shell partiu do manga de Masamune Shirow.

Slide 19: O mundo de hoje é digital, computacional, regido por algoritmos complexos, interface de ecrãs. Nem sempre foi assim. Nos tempos da linha de comandos, do texto verde sobre ecrã preto, houve escritores que se atreveram a imaginar o potencial e consequências da computação sobre nós e sobre a sociedade. Destes, os mais conhecidos são Bruce Sterling, que percebeu o efeito das redes sobre as pessoas, permitindo interligar e gerar novas ideias; William Gibson, que imaginou hackers a interferir com os espaços de dados e nos legou o termo ciberesepaço.

Slide 20: Neal Stephenson, que imaginou a vida dividida ente o espaço físico e o virtual tridimensional. Estes e outros inspiraram um género denominado de cyberpunk, que se atreveu a pensar no impacto do computador sobre a sociedade. Não preveram, reflectiram e inspiraram. Como curiosidade, William Gibson escreveu o romance Neuromancer, onde nos lega o conceito de ciberespaço, numa máquina de escrever. Leituras: Neuromancer, William Gibson; Schismatrix, Bruce Sterling; Nome de Código Samurai (Snowcrash), Neal Stephenson; Brazyl, Ian McDonald.

Slide 21: Mostrar clip do filme Hellboy II - The Golden Army.

Slide 22: Um visual fascinante, não é? Encanta o olhar, esta estética de mecanismos de relojoaria dourados a latão, barroquismo, fatos elegantes e antiqudados. Hellboy é um personagem de Mike Mignola, mas este filme inspira-se numa estética denominada de steampunk.

Slide 23: (Cosplayers portuguesas da Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas) Inspira-se em visões de um futuro determinado pela era vitoriana. Época Edwardiana, para ser mais preciso, mas a rainha Vitória marcou fortemente a imaginação. Os fãs de steampunk misturam a tecnologia de hoje com estética e materiais típicos do século XIX.

Slide 24: Reclamam como faísca o livro The Difference Engine, escrito por Bruce Sterling e William Gibson.

Slide 25: Obra que se inspira no Engenho Diferencial, um dos primeiros projectos de computadores. Concebido por Charles Babbage, nunca chegou a ser construído, por ser demasiado complexo e exigir uma precisão inatingível pelos artesãos do ferro da altura.

Slide 26: Lembram-se de Ada Lovelace, a filha do amigo de Mary Shelley? Foi assistente de Babbage e criou a primeira liguagem de programação para este computador que nunca foi construído. Mas e se tivesse sido concretizado, como poderia ter evoluído o mundo? É daí que parte o romance que deu a faísca ao Steampunk.

Slide 27: Esta estética Steam veio beber inspiração a dois filmes muito específicos dos anos 50: The Time Machine e 20.000 Léguas Submarinas. O primeiro baseia-se num romance de H.G. Wells, e o segundo no livro homónimo de Júlio Verne. Estes autores da viragem do século XIX para o XX estão na linha directa da génese da Ficção Científica como género literário.

Slide 28: Trailer de 20000 Leagues Under The Sea.

Slide 29: Verne é marcante como autor de romances de aventuras científicas, sendo justamente considerado um dos pais da FC.

Slide 30: Já Wells escrevia sobre sistema sociais e impactos da tecnologia. Ficou para a historia o romance A Guerra dos Mundos, cuja adaptação radiofónica nos anos 30 por Orson Welles convenceu os ouvintes que os marcianos tinha mesmo aterrado e estavam a invadir a América. Nos anos 70 fez-se uma adaptação na rádio portuguesa que teve o mesmo efeito. Fechando o círculo, o steampunk aponta Júlio Verne como a outra grande influência na sua estética.

Slide 31: Um pouco de Time Machine (1960) a mostrar a influência visual que virá a excercer no Steampunk.

Slide 32:cCena do filme The Time Machine, com o viajante a assistir à aceleração do tempo. Livros: The Difference Engine, Bruce Sterling e William Gibson; The Time Machine e War of the Worlds, H.G. Wells; A Volta ao Mundo em Oitenta Dias e Da Terra à Lua, Júlio Verne.

Slide 33: Os futuros imaginários concebidos na viragem do século também deixaram por cá a sua marca. Em 1906 o engenheiro Melo de Matos imagina a Lisboa no ano 2000 numa série de artigos para a revista Ilustração Portuguesa. Um dos textos elementares da ficção especulativa portuguesa.

Slide 34: Os primórdios do século XXI vistos pela lente do final do século XIX, ainda a acreditar na perenidade dos sonhos colonialistas e no eterno sonho da afirmação de Portugal como um país de poder e referência.

Slide 35: Lisboa é um nexo de impérios, linhas comerciais e vias de comunicação.

Slide 36: É um texto de referência, que nos faz sorrir com este século XX de telégrados e crinolinas, de comboios a vapor nos túneis sobre o Tejo e frotas de dirigíveis a aportar ao grande porto comercial lisboeta.

Slide 37: Recentemente, João Barreiros lançou um desafio a escritores portugueses do fantástico a reimaginar Lisboa no ano 2000 como se a visão de Melo de Matos tivesse determinado a evolução do século XX. O resultado é esta divertida antologia.

Slide 38: Trailer do filme The Box.

Slide 39: E se uma acção aparentemente inócua mas algo imoral nos mudasse a vida para melhor?

Slide 40: Se, tocando numa campaínha que fazia tilim tilim caísse fulminado alguém do lado de lá do planeta cujas riquezas passariam para as mãos daquele que tocou no botão? Esta resposta já foi dada pelo escritor português Eça de Queiroz no clássico O Mandarim, onde um pacato funcionário enriquece à custa de um mandarim morto na longínqua China. Se as riquezas o embevecem, o espectro do chinês morto irá atormentá-lo para o resto da vida. E não há nada, nem a queda na dissolução moral ou a piedade caritativa, que o liberte desse fardo.

Slide 41: O filme The Box parte de um conto de Richard Matheson. Este escritor e argumentista multifacetado é um daqueles escritores cujas histórias são bem conhecidas mas quem poucos conhecem. Se viram o filme I Am Legend conhecem a variante da história de Drácula deste escritor, onde todos são vampiros e o humano é o monstro.

Slide 42: Trailer do filme Fahrenheit 451 (1966).

Slide 43: Como é que um leitor se apaixona pela literatura? Não posso falar pelos outros, apenas de mim. Tem a ver com o filme cujo excerto acabaram de visualizar. Não, em bom rigor, pelo livro em que é baseado, mas por uma outra obra mais antiga do autor, Ray Bradbury.

Slide 44: Guardo com muito cuidado e carinho o exemplar do livro As Crónicas Marcianas, que, na adolescência, me fez apaixonar pela FC. como algo de mágico. Uma história de marcianos com foguetões e alienígenas, mas sem lutas, futuros longínquos ou naves espaciais a explorar galáxiasdistantes. Bradbury também escreveu Fahrenheit 451, a partir do qual este filme de Truffaut foi feito.

Slide 45: Imaginem que  os bombeiros serviam não para apagar fogos mas para atear fogueiras onde eram queimados livros. Os livros vivos, aqueles que preservavam na sua memória o conteúdo das obras reduzidas a cinza pelo totalitarismo de rosto sorridente, mostram-nos a importância da literatura para encantar a imaginação.

Slide 46: Se se estão a perguntar qual é a lógica desta discussão, ela toca em aspectos da literatura fantástica que se intersectam com a tecnologia e a cultura popular. Não como preditora de futuros presentes. Estamos a falar de especulações e não predições oraculares. Mas como análise de ciências e tecnologias contemporâneas que desafiam a perceber por onde caminhará o presente. E são aspectos de um gosto, que em parte não se explica por ser emocional, pelas literaturas fantásticas e especulativas.

Há fantásticos na literatura, da Ficção Científica, fantasia, policial, ou da literatura tradcional. Sempre que um autor desafiar os leitores, atrevendo-se a imaginar, a pensar o mundo não como espaço adquirido mas como um e se cheio de possibilidades libertas pela imaginação, toda a literatura é fantástica.

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