quarta-feira, 6 de maio de 2015

Adeus, pequenina.


Hoje de luto. Foram treze anos cheios de vida, de alegria, de latidos com aquele tom especial que entrava no ouvido, de dentadas quanto estava mal disposta. Treze anos daquele olhar terno que me conquistou. De querer saltar sempre para os meus braços quando chegava a casa. Do ar feliz que fazia mal punha os pés na praia. De passeios de carro, de descoberta de recantos. De muitos mimos. Até hoje eu era um clássico a boy and his dog, embora sempre suspeitasse que era mais a dog and her human. Tinha um feitio muito próprio, era muito senhora do seu nariz.

Os últimos anos já foram complicados, com sequelas de uma operação à coluna vertebral a fazerem-se sentir com a idade, e doenças cardíacas típicas da raça a prejudicar a qualidade de vida. Nos últimos meses desenvolveu uma estranha forma de epilepsia que causava convulsões aleatórias. Hoje o coração dela deixou de ter força para tanta vida.

De passagem para a Lourinhã, ainda consegui passar por casa para a animar, fazer festas e dar-lhe aqueles que não suspeitava virem a ser os últimos beijos na testa. Disse-lhe o dono já volta, força! e parti de coração nas mãos, sem perder a esperança que recuperasse. A meio da sessão do Livros a Oeste interrompi para receber a chamada fatídica da veterinária. Caiu-me tudo, mas esforça-se um sorriso, pensa-se the show must go on, e termina-se o que se estava a fazer. Gostaria que tivesse corrido melhor, especialmente numa conversa sobre ficção científica e futuros, mas este é sempre imprevisível. No regresso reflecti como tantas vezes, como quando faleceu o meu pai ou nalguns desaires fortes que a vida já me pregou, chorei ao volante. É uma condição da modernidade.

Foram treze anos. Gostaria que tivessem sido mais, mas a natureza assim não o quis. Hoje é hora de tristeza, de luto por aquela que aos meus olhos era a mais bela tibetan spaniel do mundo. E de memórias, que são sempre alegres. Só lamento não a ter conseguido levar à praia uma última vez. Aí, a felicidade dela era extraordinária. Hoje sei que não volto a ouvir o barulho das patas ou os latidos a pedir mais uma festa. O buraco no coração é enorme. Sic transit gloria mundi. Adeus, Margarida.

2 comentários:

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

As minhas condolências. Também sei o que é a afeição a um animal de estimação. Nestes casos o que costuma ajudar a superar a mágoa é... arranjar logo outro.

artur coelho disse...

obrigado. é um bom conselho, mas a minha vida actual não me permite ter outro animal. com esta já era complicado e se não fossem os familiares não lhe conseguiria dar o apoio que precisava. além disso... esta era uma cadelinha muito especial. a primeira vez que a vi detestei-a... mas depois ficámos a dog and her boy :)