sábado, 16 de maio de 2015

Sustos às Sextas (V)


A má notícia é que terminou. A boa, é que ficou muito em aberto, quase certa, diria, a possibilidade de uma segunda temporada. Pela última vez rumei às wildlands do sprawl suburbano para a quinta edição desta tertúlica classicista dedicada ao Terror literário, que durante cinco semanas se entrecruzou no grande salão do neo-medievo Palácio dos Aciprestes. Que, ao que consta, é assombrado, o que explica alguns ruídos estranhos que se ouviram naquelas noites. E, talvez, um crepitar temeroso da lareira durante uma leitura de um conto de horror.


Para encerrar a primeira temporada Rogério Ribeiro, o infatigável organizador do Fórum Fantástico, levou-nos numa sinuosa viagem pela história da ciência cruzando o rigor científico e as superstições espíritas. Como não podia deixar de ser, também nos levou a uma curta viagem pela iconografia do cientista louco, definitivamente cimentada nos anos 20 com Rotwang de Metropolis naquele misto de sabedoria sem fronteiras com tendências hubrísticas de domínio. Como sublinhou neste momento, o lado prometeico, de curiosidade sem limites, traz sempre consequências e quer a Ficção Científica quer o Horror sublinham o lado mais catastrófico e, de certa forma, moralista. Recordei-me daquele ditado popular que nos diz que a curiosidade é a principal causa de morte por entre os gatos, reflectindo este paradoxo entre uma humanidade desde sempre dependente de tecnologia e ciência que del desconfia, vendo com olhos melindrosos os espíritos inquietos que questionam, investigam e fazem avançar as fronteiras do conhecimento, imortalizando o querer ir mais alto com o castigo da queda em chamas.

Emanuel Marques, autor do conto O Aniversário, vencedor do concurso literário do Sustos, recebeu o prémio das mãos de Safaa Dib, editora da Saída de Emergência, e António Monteiro, organizador do evento. O conto foi lido, e será publicado na próxima edição da Revista Bang!.

Para encerrar com chave de ouro, sublinhando a progressiva informalidade de um grupo de fãs do fantástico que com este tipo de eventos aprofunda laços, participámos num quizz sobre Terror. Desafiado pelo Rogério Ribeiro, alinhei na equipe dos Cientistas Loucos (tecnicamente trabalho em Ciências da Educação). Para surpresa mútua demos conosco na ronda final, derrotados apenas pelo implacável David Soares. Mas hey, perder para o eminente escritor dos melhores livros de terror que se publicaram nos últimos tempos por cá é uma honra. E nada mau, os tipos dos foguetões e das rayguns aguentaram-se bem no meio dos espectros que assombram e das criaturas da noite.

Esperemos agora pela próxima temporada. A organização, a começar por António Monteiro, e estendendo-se a muitos outros (não listo porque correria o risco de ser injusto), está de parabéns quer pelo evento quer por ter mantido elevada a qualidade e o interesse. Estes Sustos às Sextas foram uma delícia. Como dizia Monteiro, é preciso ler mais M.R. James.

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