quarta-feira, 11 de março de 2015

Fucking Czerny

Numa cerimónia de entrega de disitnções a audiência teve direito àquilo que hoje se tornou a irritante moda de apelidar de "momento musical". Daquelas expressões que me faz arrepelar o cérebro. Quando uma das alunas da escola de música convidada sobe ao palco ouve-se o apresentador a anunciar que iria tocar um prelúdio de Carl Czerny. Esse, o compositor-professor, cujos trechos se tornaram cânone de ensino. The fucking Czerny, pensei. Lembrei-me de Henry Miller. De ler no... Plexus? ou no Nexus? o quanto este lendário escritor detestava os trechos de piano que foi obrigado a aprender quando o que realmente queria era saber de outras coisas. Que coisas? Se conhecem Miller sabem que não é assunto muito apropriado para abordar num momento musical numa escola. Se não conhecem, o que esperam? Suspeito que ficarão surpreendidos com uma escrita que assenta num erotismo visceral mas atinge os píncaros do alto modernismo de cariz surreal. Para mim o melhor de Miller é quando a sua prosa entra em livre associação, em parágrafos de imagética imparável. Curiosas coincidências, pensei, enquanto a rapariga se safava com mestria desta obra para piano e se atirava a Beethoven. Faz sentido. Estava numa escola, em contexto de pedagogia, só poderia ter de ouvir the fucking Czerny.

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