terça-feira, 10 de março de 2015

A Louca do Sacré-Coueur


Moebius, Alejandro Jodorowsky (2015). A Louca do Sacré-Coueur. Oeiras: Levoir.

Um filósofo de meia idade, óbvia caricatura dos super-académicos e pensadores da França moderna, debate-se com um problema ético: deverá ceder às tentações da carne e envolver-se com uma aluna que lhe confessa a sua paixão? No meio de um divórcio humilhante, cede... e aí começam os problemas. A aluna leva os seus ensinamentos místico-filosóficos demasiado a sério, e vê no filho que gera do filósofo um profeta de um novo misticismo quase cristão. Envolve-o com um ex-muçulmano que venera a filha louca de um traficante colombiano que se julga uma maria e acaba por se transmutar numa jesus andrógina. O nosso pobre professor conhece a ruína, descobre que o medo lhe provoca ataques de diarreia, mergulha na insanidade mística dos alucinados que, unidos a um poderoso cartel de traficantes, assumem proporções revolucionárias, e acaba por se renovar num êxtase místico propiciado por cogumelos alucinogénicos. As tropelias hilariantes sucedem-se, imparáveis.

Os fãs dos misticismos cósmicos e das comédias descontroladas adorarão esta obra que é corpo estranho no corpus destes autores. Fica-se com a sensação de que as desventuras deste elevado filósofo, alimentadas por sexo e misticismo, são Moebius e Jodorowsky a rirem-se de si próprios. O ilustrador assina como Moebius mas desenha como Giraud, numa série de livros cuja estética anda muito longe dos devaneios do fantástico que lhe associamos, mas muito próxima do realismo sintético de Tenente Blueberry. Sente-se esta ironia com especial acutilância no argumento. Jodorowsky é adepto místico e de filosofias sincréticas, e através do registo de humor ironiza consigo próprio. Elementos que são encarados como sérios nas suas outras obras aqui são levados ao absurdo. Dois mestres, a rirem-se de si próprios, sorrindo e afastando os véus da imponência do seu estatuto.

Uma nota: esta edição da Levoir, para além de ser a primeira tradução portuguesa deste trabalho talvez menor destas lendas da bande dessinée, publica a integral dos três álbuns.

2 comentários:

Cristina Alves disse...

Confesso que tive alguns "problemas" em pegar este exemplar na papelaria do trabalho, no meio de tanta gente :S mas claro que tinha de vir !

artur coelho disse...

ah. comigo foi "é o professor artur, não é? cá está o livro". mudei de cor.