terça-feira, 24 de março de 2015

A Viagem


Edmond Baudoin (2015). A Viagem. Oeiras: Levoir.

Diria que é um anseio comum. Não se trata do simples fugir à rotina, mas partir para se encontrar a si próprio enquanto se deambula à descoberta pelo mundo. É o que faz o singular apático protagonista deste romance gráfico. A sua única acção decisiva é fugir às opressivas gaiolas mundanas e num impulso apanhar um comboio para algures. A partir daí segue em deriva, ao sabor de acontecimentos e impulsos. Vai-se descobrindo a si próprio a cada novo dia, enquanto vagueia por entre cidades, se apaixona e descobre amizades. Uma vontade que todos sentimos, a espelhar um pouco da biografia do autor.

Se a história é um hino à busca de si próprio e ao gosto pela deriva à descoberta do mundo, não deixa de ter o seu quê de ingénua. Nem todos os que partem encontram amigos de espírito semelhante com veleiros ou chalets na Sabóia. Nos tempos que correm tem sido mais barcos decrépitos e apinhados a afundar-se no mediterrâneo. O romantismo da viagem idealizada coaduna-se pouco com a realidade brutal, o que não invalida a beleza do romance. Afinal, quantos de nós não sonham, e o tentam concretizar com curtas fugas em tempos de férias, ou com mil e uma formas de combater a alienação trazida pela modernidade? Se o fazemos ou sentimos necessidade de o fazer é porque somos humanos.

Visualmente este é um livro deslumbrante. O traço de Baudoin afasta-se do realismo da banda desenhada, entrando num campo mais pictórico onde as vinhetas funcionam como quadros. Algumas, pelos enquadramentos e dimensões, remetem para a agora clássica pintura romântica e impressionista francesa, mas o traço do autor ganha mais vida em registos fortemente expressionistas que nalguns casos chegam a tocar a abstração. E funciona. Este é um daqueles livros de bd em que se percebe a força dos enquadramentos e da sequenciação visual para nos contar uma história muito para além da narração verbal. Sente-se, logo desde as primeiras pranchas, que a leitura passa mais pela imagem do que pelo texto, que compreendemos o personagem e os seus anseios através da linguagem visual. Nesta vertente há nesta obra momentos de cair o queixo. Sublinho uma, de muitas que poderia destacar: um enquadramento que se repete, de duas personagens vistas ao longe num cais de Paris, com duas barcaças que no mesmo plano se aproximam. Genial, pensei. Sente-se o tempo a fluir nestas duas vinhetas.

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