domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sincronismo


O que é interessante é atar as pontas soltas. Visionei durante a tarde, na sessão de formação do Plano Nacional de Cinema na Culturgest, o ponto marcante do Cinema Novo que foi Belarmino de Fernando Lopes. Durante a discussão que se seguiu a formadora refere o quão incómodo este filme foi, malquisto pelo regime mas também por uma oposição socialista e comunista que preferia a exaltação do neo-realismo às nuances desta obra. Os círculos de esquerda acusaram Fernando Lopes de não passar de um sensualista. Palavra que me ficou na mente. Recordou-me o dogmatismo do realismo soviético, a exaltação propagandística da arte ao serviço da ideologia.

Adiante. Horas depois, na sessão Recordar os Esquecidos organizada por João Morales na Livraria Almedina, o escritor Miguel Real falava apaixonadamente da obra de José Régio, também ele mal visto pela intelectualidade mais à esquerda. A sua prosa não se enquadrava na literatura que punha a nu a pobreza extrema do país sob a bota fascista. O próprio Álvaro Cunhal apelidou a sua obra de presencista por representar uma visão de arte mais virada para si própria, ao invés de interventiva no combate político e ideológico. Curiosa polémica para denegrir a obra de um homem que, como Miguel Real nos contou, se definia como cristão, republicano e socialista, ou que foi o único a defender um colega comunista do liceu de Portalegre num processo movido pelo ministério da educação.

Vivemos hoje, espero, em tempos mais tolerantes em que os caminhos artísticos não têm necessariamente de ser colocados ao serviço de ideias, apesar de também o poderem ser. O que fica é que polémicas e lutas à parte, estas são obras que ficaram para o futuro e hoje surpreendem quem com elas se cruza. E, como gosta muito de dizer João Morales, nisto o que é interessante é atar as pontas. Cruzar diferentes meios e perceber que as interligações entre campos isoladamente vistos como díspares. Não o são, nunca o são, mas precisamos de sair das nossas caixinhas para sentir isso.

A sessão da manhã foi dedicada ao software livre, numa sessão sobre Libre Office organizada pela Anpri no Museu das Comunicações. E o que é que isso tem a ver com clássicos do cinema novo ou escritores a cair no esquecimento, perguntam-se? Nada, à partida, mas quando começamos a pensar em questões como o vendor lock-in, utilização de plataformas fechadas e os riscos de por capricho do vendedor o nosso trabalho poder passar a ficar ilegível, ou os excessos da propriedade intelectual percebe-se que também aqui há ramificações. Boa parte das obras com significação cultural estão tão protegidas por direitos de autor que ninguém lhes pega. Poderiam ser gratuitas, mas não o podem ser, e não há justificação para grandes investimentos para públicos restritos. Belarmino está disponível no Youtube, suspeito que a violar descaradamente a legislação portuguesa sobre direitos de autor. Depois desde longo dia passei pela Fnac à busca de bilhetes para os Kraftwerk (com sucesso) e livros de José Régio. Obras deste autor, não dei com nenhuma nas estantes de literatura portuguesa, mas encontrei um exemplar esquecido dos Contos do Gin-Tonic de Mário Henriques-Leiria. Daqueles livros que volta e meia me recordo que havia de o conhecer. Livro que começa logo com este caveat lector, avisando-nos que as coincidências têm causas matemáticas bastante curiosas.

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