terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Revoir Paris


Benoit Peeters, François Schuiten (2014). Revoir Paris. Paris: Casterman.

Deslumbres visuais é o que habitualmente esperamos da dupla criativa Peeters e Schuiten. O imaginário urbano do argumentista e o estilo clássico do ilustrador conjugam-se para nos encantar desde o primeiro álbum da série Cidades Obscuras. Não são uma dupla alheia à Ficção Científica, também presente de forma discreta na sua série mais icónica. Este Revoir Paris mergulha fundo na FC e leva-nos a um futuro que também se constrói de passados imaginários.

No século XXII uma jovem astronauta é o único elemento que não dorme o sono criogénico da tripulação de uma nave vinda de uma colónia orbital que há muito tempo que cessou o contacto com o planeta mãe. Também é o único elemento não geriátrico da expedição, elemento cujo simbolismo confesso não ter percebido. Há indícios de que teria sido autorizada a partir por se recusar a procriar, e a pergunta do porque é que apenas pessoas de idade avançada desejariam rever a Terra não nos é respondida neste primeiro volume. Nostalgia? Um progressismo em que os mais novos desdenham os laços do passado e resta aos mais anciãos o peso da memória? Mas adiante. A jovem tem um fascínio estranho por Paris. Viciada numa droga que parece dissolver as barreiras do espaço e do tempo, viaja para os passados da cidade, mas só o pode fazer com os referenciais visuais de velhas fotos ou ilustrações. Somos levados com ela para a Paris dos primeiros momentos da Torre Eiffell, ou mergulhados no retrofuturismo da Paris do futuro imaginado pelo incontornável Robida. Curiosamente ausente está o modernismo austero da Paris de Le Corbusier.

A chegada à Terra é uma queda numa realidade mais dura. O futuro é estranho, industrial, feio e de forte toque neoliberal. Ficções produzidas neste momento difícil da história europeia e mundial tendem a reflectir o desagrado com a visão do mundo que nos querem impôr que reduz o homem a um mecanismo de eterna lufa lufa económica. A própria Paris é uma cidade sob redoma, de entrada controlada e atribuída apenas àqueles cuja afluência financeira é desejável pelas autoridades. No seu interior a velha cidade tornou-se peça de museu, local pensado para ser visitado mas não vivido, algo que não consigo deixar de sentir como um comentário amargo sobre a tendência contemporânea de transformar as cidades europeias em locais belos mas estéreis, apostando no encanto fugaz do turimo de massas afluentes para sustentar economias que substituem o charme artificial pela autenticidade e sustentabilidade.

O traço de Schuiten continua o deslumbre de sempre, tão à vontade na estética do ferro forjado industrial como na bizarria que dá corpo a Robida, como num futuro que consegue ser-nos ao mesmo tempo familiar e estranho, com um forte ênfase em geometrias tridimensionais complexas.

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