terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Les Secrets des Chefs-d'oeuvre de la BD


Thierry Taittinger (ed.) (2014). Beaux-Arts Hors-Série: Les Secrets des Chefs-d'oeuvre de la BD. Paris: TTMéditions.

Uma boa leitura nesta transição de 2014 para 2015. A BD vista pelos ensaístas da revista francesa Beax Arts, analisando autores e obras importantes. Dá-nos como bónus algumas pranchas esquecidas ou inéditas. E.P. Jacobs retrata a descoberta do túmulo de Tutankhamon. Há uma história inédita de Corto Maltese, com Hugo Pratt a rascunhar um regresso do veterano viajante aos lugares da Balada do Mar Salgado. O trauma da desagregação da Jugoslávia e a guerra bósnia são revisitados num grafismo estonteante por Enki Bilal. Art Spiegelman revisita a faísca criativa de Maus, e as primeiras pranchas por Chris Ware de Jimmy Corrigan na ACME Novelty Library são aqui traduzidas para francês.

A edição centra-se em livros-chave e nos seus autores: O Lótus Azul de Hergé, O Mistério da Grande Pirâmide de E.P. Jacobs, Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, O Espectro das Balas de Ouro de Charlier e Jean Giraud, Os Passageiros do Vento de Bourgeon, A Caçada de Christin e Bilal, Maus de Art Spiegelman, 120, Rue de la Gare de Tardi, From Hell de Alan Moore e Eddie Campbell, Jimmy Corrigan de Chris Ware. Analisa um pouco dos autores e sua obra, reflectindo na construção das narrativas, registos gráficos documentais e estrutura de leitura das vinhetas. Vistos como um todo, traçam a evolução da BD de leitura informal juvenil até à corrente visão de arte que se socorre da narrativa literária, enquadramento visual e mestria gráfica, afirmada como de direito próprio.

O foco em Hergé mostra a evolução de um autor de bd simplista e panfletária para a construção de narrativas bem estruturadas, que se socorrem de fortes pesquisas cenográficas e não fogem aos dilemas da realidade contemporânea. E.P. Jacobs centra-se na mestria do traço e no rigor da representação. Pratt simboliza a mescla entre o viajar e o contar de histórias, bem como do afastamento do realismo meticuloso com grafismo mais livre, mas essencialmente por simbolizar a génese do romance gráfico, degrau de amadurecimento da BD que se afasta da aventura episódica. Para Giraud o foco está no fascínio pelo velho oeste, expresso em pranchas que capturam as paisagens desérticas de tirar o fôlego. Bourgeon é destacado pelo seu rigor gráfico, foco em personagens femininas e cuidado no retratar de épocas históricas. Bilal é outro incontornável, aqui registado pelo seu grafismo à época inovador nas colaborações com Pierre Christin, que mostram a capacidade da BD de interpretar os dilemas do mundo contemporâneo. A história revista de modo fortísimo em toque auto-biográfico é reflectida na abordagem de Art Spiegelman às memórias individuais e colectivas do holocausto. Jacques Tardi é analisado através do cruzamento entre literatura e banda desenhada, e como este cruzamento dá um novo poder a histórias que se afirmam em diferentes media. A maturidade da bd enquanto romance gráfico é analisada pelo lado do argumento com a minúcia e sentido de estranheza de Alan Moore, enquanto o experimentalismo gráfico é visto a partir do grafismo de Chris Ware.

Podemos discordar da escolha das obras ou apontar outros autores, mas trata-se da Beaux Arts, revista mais formal e algo longínqua das vanguardas gráficas. As análises são interessantes, com atenção dada aos pormenores estruturais da gramática visual da banda desenhada e um sublinhar da importância do referencial. Só uma coisa me irritou, como fã de Ficção Científica. Ao falar de Giraud, era ao articulista impossível de fugir ao espectro Moebius, e afirma-o como contaminado pela FC por via de Druillet. Contaminado. Fiquei a ruminar neste óbvio desconsiderar do lado mais belo e espantoso do trabalho de Giraud/Moebius por causa das contaminações. No parágrafo seguinte o mesmo articulista saúda a série Tenente Blueberry por provar à opinião pública, à época, que a BD se afirmava de direito próprio, não se limitando à historieta infantil ou aventura para divertimento massificado. Que bom, pensei. BD é erudita, mas essas coisas da ficção científica contaminam e são de evitar. Uma pequena incoerência, a juntar-se à inexplicável escolha da adaptação de um policial para falar de Tardi, ao invés de Adéle Blanc-Sec ou dos sublimes livros do autor sobre a guerra nas trincheiras. Mas aqui falamos de escolhas, sempre polémicas se vistas pelos prismas dos amantes do género. No global esta edição especial deu que pensar. Mostrou a rápida evolução conceptual da BD através de autores e livros marcantes.

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