quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cecília Paz 15.º Dia em Marte


Daniel Ferreira (2007). Cecília Paz 15.º Dia em Marte. Vila Nova de Gaia: Gailivro.

Gostaria muito de não desancar este livro. Foi uma descoberta nas prateleiras de FC em português numa livraria de Óbidos. Nunca tinha ouvido falar deste livro, e se me dissessem que havia romances de FC para público jovem escritos em português eu não acreditaria. Mas existem, e este é um desses casos. Num panorama tão restrito como o nosso só este carácter já é merecedor de destaque.

Junte-se a isto uma história bem ritmada, com uma jovem heroína à caça do assassino do seu pai, morto às mãos de um terrorista que aparentemente se esconde na colónia marciana. Uma boa desculpa para uma viagem da Terra a Marte, com encontros com os benévolos marcianos e piratas espaciais alienígenas. A colónia marciana tem o seu quê de subúrbio, e a acção depressa regressa à Terra, com a caçada final ao terrorista nas montanhas da floresta negra alemã auxiliada por um eficaz guia de montanha e um hacker russo refugiado em Lisboa. Nada mau como enredo para um público infanto-juvenil, com uma estrutura simples, momentos empolgantes e jovens heróis em aventuras contínuas.

O mundo ficcional do livro também se adequa muito a este género. Vive-se num futuro de distopia disfarçada, com os governos terrestres centralizados a restringir cultura e comportamentos em nome da segurança e bem-estar e uma sociedade panopticon de redes digitais e videovigilância. A colónia marciana é o único local onde os terrestres podem ser verdadeiramente livres, e existe num equilíbrio precário entre a vontade terrestres e a benevolência da mais avançada civilização marciana. Pelo meio temos estações espaciais, bases lunares e viagens pelo sistema solar a velocidades realistas. Não é um enorme voo de especulação, antes, extrapola o mundo contemporâneo com toques de cyber-distopia. O que me leva a uma das questões mal respondidas do livro: se os governos são opressivos, porque é que aquele que os combate é o vilão?

Estes elementos são interessantes, e bem montados dentro de uma narrativa young adult, mas não chegam para nos legar um excelente livro. A história tem curiosas inconsistências - invasores alienígenas que aparecem a meio do livro depois dos infodumps em que o autor nos explica que o sistema solar é habitado por terrestres e marcianos, ou guias de montanha cheios de gadgets muito úteis para invadir as fortalezas secretas de perigosos vilões que se fazem acompanhar de dilectos mordomos são talvez as mais óbvias.

Até aqui menos mal. Os problemas começam quando olhamos para o carácter literário do livro. Ou, talvez, a sua ausência. O uso da linguagem tem aqui momentos atrozes. Imaginem parágrafos inteiros ou discursos entrecortados por vírgulas ou exclamações, sem ritmo, nem sequer de fluxo mental. Boa parte do livro é assim, apesar de ressalvar que sensivelmente a partir do meio a prosa melhora e focaliza-se muito bem. Suspeito que isto é sintoma da velha questão da edição e do papel do editor na melhoria dos textos, que vejo muitas vezes debatida nos fóruns dedicados à ficção de género.

Também não resisto a assinalar a propensão do autor para nomes ridículos. O apelidar a sua personagem principal de "cecília" e o título tão mal sonante do livro são pistas para o que nos espera no interior. Temos expressões e apelidos tão irritantes como "ford spid fire" (spid, leram bem, e não é gralha de speed ou spider porque se repete várias vezes), o uerer ser futurista á força e chamar jactódromos a aeroportos (esta expressão ejaculatória provoca volteios ao estômago). A melhor preciosidade é o nome dado ao grupo terrorista "força terrorista mundial", que o autor se apressa a dar-nos o seu acrónimo em inglês: wtf. WTF pensei eu quando li esta pérola.

São falhas, graves do ponto de vista da ficção científica mais cuidada e pensada. Mas como livro de FC para um público infanto-juvenil esta é uma boa leitura, apesar das muitas falhas. Terminada a leitura, confesso que tenho imensa pena em desancar os aspectos formais e os pormenores da construção ficcional deste livro.

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