terça-feira, 18 de novembro de 2014

Tecnologia 3D no Fórum Fantástico 2014


Na edição deste ano do Fórum Fantástico tive o prazer de moderar um painel sobre tecnologias 3D, essencialmente sobre impressão 3D. Estariam presentes representantes da BeeVeryCreative, que graciosamente aceitou o convite feito pela organização para trazer a sua tecnologia à IX edição do Fórum, e José Alves da Silva, ilustrador 3D e character designer.

A BEEVERYCREATIVE criou e comercializa a primeira impressora 3D nacional desenvolvida em Portugal para o mercado de consumo. Foi distinguida recentemente na 3DPrintshow 2014 com os prémios BEST CONSUMER e BEST PROSUMER, e esta semana considerada Rookie of the Year pela Make Magazine. Qual o conceito, porquê a aposta nesta tecnologia, será um longshot a médio prazo ou haverá já massa crítica global que justifique e será o 3d printing disruptor e transformativo, ou apenas nicho, especialmente no que toca às indústrias criativas, seriam as perguntas que gostaria de ter feito no painel. Infelizmente o elemento da empresa não esteve presente por motivos de saúde.


Remeti-me para um vídeo demonstrativo da tecnologia da Bee e para Luís Alves, que tinha uma bee a funcionar no átrio do auditório a deslumbrar os visitantes. 

A conversa decorreu com José Alves da Silva, artista na área do 3D focalizado na ilustração em 3D e concepção de personagens. Os fãs do fantástico conhecem o spotlight na revista Bang. Trabalhou com Bre Pettis, criador da makerbot, no projecto de filme Margo, primeira iniciativa da divisão Bold Machines da Stratasys. O seu trabalho é descrito, e aqui passo citar Nelson Zagalo no seu perfil do ilustrador para o Virtual Illusion, como de “ uma qualidade incrível (…) o detalhe, a assimetria e a “rugosidade” das formas e os pormenores na construção dos cenários. Depois em termos de textura e shadings é tudo tão absolutamente perfeito, bem saturado, realista mas suficientemente cartoonizado. Ou seja, o trabalho de José Alves da Silva não é daqueles que dizemos ser tecnicamente perfeito, ele é apenas e só, artisticamente brilhante.” Parti com quatro questões bem definidas, sobre como surgiu o interesse pela impressão 3D, como funciona o processo criativo de design para impressão 3D, que potencialidades estéticas são despertas pela tecnologia de impressão 3D, e se a introdução ao 3d printing foi através do “filme” do Bre Pettis ou houve outras experiências antes  da aventura com a Bold Machines



Fui surpreendido com uma encantadora partilha sobre design em 3D, processos de trabalho, aventuras entre os dinamizadores desta tecnologia, e muita mostra de trabalho de nível elevadíssimo. Fiquei espantado quando vi que as peças que trouxe, impressas numa Makerbot utilizando processos de concepção que do ponto de vista mais tradicional do desenho contrariam o senso comum, tinham peças interiores móveis directamente impressas. Isso e o elevadíssimo nível de detalhe da impressão, tendo o autor ressalvado que com outros tipos de impressão o detalhe é ainda mais minucioso. Foi um dos muitos pontos altos de uma apresentação que ainda tocou nas diferentes tecnologias de 3D printing e no equilíbrio entre as condicionantes técnicas e a vontade estética.



Esta (o 3D Printing) é uma tecnologia que se está a destacar pelo seu potencial e iminência de abrangência ao grande público. A impressão em 3D saiu dos laboratórios, instalou-se nos ateliers e oficinas e ameaça chegar a todos os utilizadores. O 3D printing traz para os meios digitais esses processos tão normais em pintura, escultura, em qualquer expressão criativa que solidifique num material o imaginário do criador. O que intriga é esta nova forma de ser artesão com ferramentas digitais. Das várias tecnologias de impressão 3D (estereolitografia, corte por laser, impressão de camadas, impressão multi-cor e multi-materiais e sinterização a laser), sendo a extrusão de filamento a que consegue chegar a um público alargado. Será disruptora, modificando irremediavelmente modelos de produção colocando nas mãos de cada um formas de materializar as suas ideias? Será um nicho?

Os fãs de FC conhecem bem conceitos como nanofabricadores, máquinas capazes de manipular a matéria para gerar objectos ou comida. Como faz o Capitão Picard no Star Trek para tomar o seu chá earl grey no final de mais uma aventura onde nenhum homem se atreveu a ir antes.

É intrigante observar esta explosão tecnológica, comparável às vagas iniciais da internet ou da computação pessoal. O fascínio humano pelo objecto físico encontra no virtual uma nova dimensão, e a possibilidade de concretização física do virtual abre novos e intrigantes campos de actuação. Num futuro muito próximo, será possível a qualquer um imprimir peças mecânicas, objectos artísticos, brinquedos, enfim, tudo o que a imaginação e o domínio de ferramentas de CAD e modelação 3D lhe permitir.

Era assim que gostaria de ter começado a apresentação: Mas não foi assim que comecei. Perante um público literário sublinhei que o foco não iria incidir sobre a óbvia relação quase fetichista entre ficção científica e tecnologia, ou nesta como instrumento de trabalho, mas sim nas possibilidades criativas de tecnologias cada vez mais acessíveis. Poderíamos estar a falar de arduinos, robótica ou coding, mas ficamo-nos por algo que não sendo recente (as primeiras patentes foram registadas há mais de trinta anos) deslumbra-nos pela materialização que faz do virtual. E recordei Bruce Sterling com a sua observação de que o verdadeiro cyberpunk hoje não se encontra nos efeitos especiais de Hollywood mas sim nas demoscenes ou nos vídeos em Processing. Enquanto dizia isto reparei em alguém lá ao fundo da sala a sorrir e agitar os braços. Seria um demoscener ou um coder? Ou um fã dos discursos de encerramento do Bruce Sterling no SXSW?


Tive ainda tempo para uma conversa com Luís Alves, destacado pela Bee para nos vir trazer a impressora ao Fórum Fantástico. Esclareceu-me uma das questões que tinha sobre a empresa: como sobreviver e crescer em Portugal com um produto de vanguarda. A resposta foi... fora de Portugal. Por cá as vendas não têm expressão. O interesse é grande, mas o investimento reduzido. Sublinhou o esforço da empresa em tornar toda a produção das bee cem por cento nacional. Até nas espátulas que servem para retirar o objecto impresso da base, feitas na leiriense ICEL.Só lhes falta localizar a produção de filamento PLA, que me foi dito que graças a um acordo com uma empresa alemã irá em breve começar a ser produzido por cá. Outro ponto que me deu mais vontade de apoiar a Bee, apesar de sentir que no que toca aos meus objectivos pedagógicos algo mais próximo do conceito open source das reprap seja o mais indicado. Quero que os meus alunos compreendam a tecnologia que está por debaixo do capot e não se fiquem pela impressão dos objectos que conceberem. Claro que por enquanto esta é uma questão académica, mas se não a colocar e estudar bem o campo do 3D Printing nunca passará de um daqueles devaneios inatingíveis. 

Nota mental: da próxima vez que tiver de moderar algum painel, convém não esquecer que no final se abre tempo para questões do público...

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