quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Na Sombra das Palavras


(2014). Na Sombra das Palavras. Vagos: Editorial Divergência.

Bom arranque da Editorial Divergência, com um livro que sabe mais a revista/fanzine e que se calhar poderia estar aí uma aposta. Apesar de haver muitas publicações de contos por cá não há uma publicação regular e contínua, sem ser online. Não é um arranque perfeito, mas bolas, sejamos honestos. O facto de sermos uma cultura de nicho num país períferico tem de implicar que a mão-cheia de autores que se dedicam ao fantástico tenham de ser uns génios literários cheios de ideias hipermodernas ou tenebrosas, com prosa acima de prémio nobel em qualquer parágrafo que escrevam? Por vezes, ao ler-se as discussões em torno destas obras, fica-se com esta incómoda sensação. Três bons contos e dois menos bem conseguidos é o saldo final desta primeira antologia da Divergência. A curiosidade para a antologia Mundos Divergentes ficou aguçada.

O Livreiro: belíssimo conto de Fábio Ventura, a tocar o horror e o surreal na história de um incauto livreiro que é seduzido por uma sensual aparição nocturna por entre as estantes e é progressivamente transformado num homem de papel. Ou aliás, um homem de letras num sentido muito literal do termo. A ambiência e o conceito estão, a meu ver, com aquele misto de estranheza e irreal que cativa e intriga o leitor.

A Lista de Deus: João Ventura é brilhante nos seus microcontos mas também não está nada mal em registos mais longos. Distingo-o pelo deslumbramento pueril, no melhor dos sentidos. Os seus contos são luminosos, bem humorados, assentes numa escrita límpida e metódica que nos remete para o longo historial da tradição literária fantástica. Neste, a descoberta de um manuscrito milenar contendo os parágrafos finais do livro do Génesis não augura nada de bom para a humanidade. Na boa tradição mágica e talmúdica que o pronunciar das palavras gera o real, é ao ler o último parágrafo do genesis que a humanidade se extinguirá, naquele sentido bíblico cheio de horrores que caem do céu.

O Panóptico: conto algo confuso de David Camarinha, sobre alguém que se encontra preso dentro de um cárcere habitado por estranhos seres. Ou sobre um personagen que ganha vida no papel mas que é apagado pelo escritor insatisfeito? Apesar de ter alguns interessantes momentos de pesadelo literário, não chega a solidificar-se numa narrativa coerente. A base promete, mas a falta de clareza narrativa não o deixa avançar.

O Labirinto de Papel: outra boa surpresa, sobre os horrores dos labirintos burocráticos dos empregos mais entediantes. Prosa límpida, foco certeiro e um bom conto de terror no sentido clássico de Ângelo Teodoro.

Tabula Rasa: conto ambicioso mas algo estereotipado de Mário Seabra, o que não surpreende. Repetir estereótipos faz parte de qualquer processo de aprendizagem em áreas artísticas. Difusamente futurista, olha para agentes cujas memórias do passado foram eliminadas por processos intencionalmente traumáticos. Mas o passado recusa-se a ser reduzido à amnésia. Algo me irritou neste conto. A opção por nomes anglófonos, que penso sempre reflectir em demasia as influências literárias dos autores. Se bem que é natural que a mente criativa tente imitar o que admira. Mas como leitor, já me cansei de nomes de sonoridades estrangeiras em contos portugueses. Não é um agitar de bandeirinha nacionalista, tem mas a ver com o fluir da língua.

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