quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Leituras


Asmara, Eritrea: a forgotten piece of Italy in Africa: Os sonhos colonialistas do futurismo modernista. A arrojada arquitectura art-deco/futurista dos arquitectos italianos é um dos mais duradouros legados do colonialismo italiano na Etiópia. Ver este ensaio fotográfico, ver a exuberância austera e elegância geométrica transplantados para os desertos do nordeste africano deixa a mente a divagar num qualquer sonho dieselpunk, num mergulho num gernsback continuum retrofuturista onde as areonaves de Bel Geddes sulcam os céus azuis etíopes, levando bersaglieri acompanhados pelas suas bella donne  até às vastidões africanas do sonho civilizacional fascista.

The 10 greatest changes of the past 1000 years: Isto é o que dá perguntar a um historiador quais as principais mudanças históricas que modelaram a nossa sociedade contemporânea. E termina de forma muito intrigante, apontando como décima (a mais recente) grande mudança a invenção do futuro no século XX, sublinhando a ficção científica e o futurismo como o contributo mais recente para visões transformativas progressistas capazes de melhorar o destino humano. O século XX legou-nos esse vício de questionar, imaginar e conceber futuros, reconhecendo o papel da ciência e tecnologia, analisando impactos e tentando extrapolar tendências de evolução: "There can be no doubt that technology hugely changed the ways in which we lived and died in the 20th century. However, it also masks changes that are arguably even more profound. In 1900 few people seriously considered the future. William Morris and a few socialists wrote utopian visions of the world they wanted to see, but there was little serious consideration of where we were going as a society. Today we predict almost everything: what the weather will be, what housing we will need, what our pensions will be worth, where we will dispose of our rubbish for the next 30 years and so on."

Living on Internet Time: No mundo digital é sempre internet o'clock em qualquer lugar (lamento, mas não consigo fazer este trocadilho soar tão bem em português). Uma curiosa reflexão sobre a atemporalidade do mundo digital, esse espaço conceptual abstracto construído por electrões e protocolos que circulam por uma vasta infraestrutrua global que, para os nossos cérebros, funciona como um espaço real, uma localização não-física tangível pela nossa mente. O tempo na internet é sempre o presente, quer seja madrugada ou crepúsculo, e os fusos horários dissolvem-se numa geografia feita de fluxos de bits.

Your Professor Isn't a Lazy Luddite: Interessante e sóbria reflexão sobre o papel da tecnologia na sala de aula. Percebe-se a ideia do equilíbrio, da aula como espaço de aprendizagem para a qual a tecnologia pode contribuir ou prejudicar, dependendo dos contextos. Foge ao solucionismo digital do deslumbramento pelos gadgets e soluções tecnológicas para todas as problemáticas educativas, reconhecendo que também estas têm as suas valências e contributos a dar. Sublinha as pressões económicas por detrás da adopção cega de meios tecnológicos (por detrás de cada visão de crianças sorridentes na sala de aula com os seus tablets ou aprendizagens multimédia há sempre um logotipo ou dois de alguma empresa em busca de novos mercados, e o da educação, por ser cativo, é particularmente apetecível). Mas o que mais me tocou no artigo foi o afirmar de algo muito óbvio. Uma aula sem tecnologia pode ser benéfica por dar espaço ao pensamento: " learning requires thinking. Hard, uncomfortable thinking, the kind where you swear you can feel gears turning, laboriously and painfully, in your head. And that requires intellectual space, which is precisely the opposite of the constant whirring of course wikis, and live-tweeting academic talks, and multimodal something-or-other". Num mundo contemporâneo mergulhado num constante fluxo de informação imediatista, é muito importante ter momentos de silêncio para pensar. Afirmar isto não é negar a importância da tecnologia na educação, querer regressar a um pretenso bucolismo de calmaria informacional da era pré-digital ou temer o grande monstro mau da internet apenas porque nos assusta. É equilibrar, mostrar as virtudes da diversidade e fluxo no acesso constante à informação, à consciência global, mas sublinhar que o mergulho num fluxo imparável sem reflectir no que nos atravessa os campos perceptuais não é saudável para a construção sólida de conhecimento que nos capacite como indivíduos autónomos e conscientes.


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