sexta-feira, 5 de setembro de 2014

The Second Machine Age


Erik Brynjolfsson, Andrew McAfee (2014). The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies. Nova Iorque: W. W. Norton & Company.

Suspeito que este livro seja o culpado pela recente explosão de interesse no impacto da automação/robótica no futuro do trabalho que temos assistido recentemente. Entre o relatório do Pew Internet Research, um vídeo alarmante no YouTube que despertou a atenção dos technorati e as inúmeras respostas e contra-respostas nos sítios do costume, algumas muito pertinentes. Será que o grosso da humanidade estará condenada à indigência enquanto a economia se mantém pujante e uma nova aristocracia enriquece com os frutos da riqueza produzida por exércitos de autómatos robóticos e de software inteligente? Este livro dá-nos respostas interessantes.

A primeira impressão que nos dá provoca sorrisos de utopia. Os autores mergulham na vanguarda da investigação e desenvolvimento, dando-nos um amplo panorama do estado actual da tecnologia. Levam-nos a visitar os automóveis autónomos da Google, os robots multi-funções programáveis da Baxter, analisam o impacto da inteligência artificial apoiada em bases de dados massivas, entre outras aplicações. Em seguida levam-nos ao lado assustador. O impacto sobre o trabalho como o concebemos  poderá ser devastador e os primeiros passos já estão dados. Parecem haver poucas áreas de intervenção humana imunes ou à substituição do trabalhador por um robot ou à automação por software. O incentivo económico para o fazer é muito elevado. A médio prazo os robots custam menos, não reclamam, trabalham 24 sobre 24 horas, não têm necessidades, não necessitam de salários e sistemas de saúde. A possibilidade de eliminação de postos de trabalhos é muito real, já em andamento, e uma inevitabilidade lógica sob o ponto de vista da eficiência.

O livro torna-se ainda mais interessante pela forma como os autores olham para esta problemática. Assumem-na como inevitável e até desejável, sob uma perspectiva humanista da libertação do espírito humano das tarefas rotineiras. Isto algo que tem estado presente na robótica desde que Hans Moravec começou a imaginar utopias futuras de uma humanidade em ócio servida por legiões de máquinas. No entanto, assumem a elevada importância do impacto no mundo laboral. Se, tal como noutras evoluções tecnológicas anteriores, a robótica criará novos tipos de trabalho e emprego não é claro que a médio prazo permitam aos novos excluídos recuperar a sua posição no mercado laboral. A possibilidade de criar um vasto desemprego estrutural é muito real. E, como os autores nos mostram, a solução não passa por restringir a tecnologia. É uma questão política e ideológica, que pode ser abordada revendo o conceito de trabalho, ou investindo em políticas activas de diminuição dos impactos. Sugerem algumas, como a existência de taxação negativa ou de um rendimento mínimo garantido para todos, que possibilite aos mais afectados manterem-se como consumidores mas mantenha o incentivo a formas criativas de trabalho. Mostram também que os maiores ganhos no uso da automação não estão na substituição do humano por bots, mas no emparelhamento com pessoas formadas. A aposta na educação é vista como algo de elementar.

Este livro intriga pela sobriedade com que aborda este tema. Mostra-nos as brilhantes possibilidades e os perigos sociais, mostrando também que as mudanças serão inevitáveis, graduais mas minoráveis através de escolhas políticas. Em essência, transmitem uma visão de progresso mais abrangente do que a aplicação de lógicas económicas à tecnologia, vendo-a como uma ferramenta humanista com o poder de modificar para melhor o desenvolvimento humano. A capacidade de o fazer é uma escolha da sociedade, o seu impacto não tem de ser negativo. Se o for, talvez releve mais sobre a nossa falta de humanidade do que da frieza desumana das máquinas.

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