quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Le Successeur de Pierre


Jean-Michel Truong (2012). Le Successeur de Pierre. Paris: Gallimard.

Pode um conjunto de boas ideias tornar-se um bom livro? Sim, se o escritor souber trilhar o caminho periclitante entre concisão, estrutura narrativa coerente e conceitos intrigantes. Não é o caso deste livro, penosa leitura que nos vai revelando um world building interessantíssimo mas internamente inconsistente, que se perde numa vastidão de páginas para contar uma história que, de facto, é o início do que poderia ser a real história.

Vamos por partes. Seccionar e isolar as ideias deste livro poderá ser a melhor forma de tirar algum sentido da salganhada. O título tem tudo a vr com um fio narrativo às voltas com um pergaminho contendo um segredo perigoso sobre o catolicismo que se perde na China com missionários nestorianos em fuga que recebem abrigo dos mongóis. Este é o leitmotiv do livro, apesar de raramente tocado, e só no final fazer sentido. O segredo não tem nada de esotérico, trata-se da admissão que a igreja é apenas o mais recente vector de transmissão de um meme inteligente, uma entidade sentiente talvez surgida com o big bang, espécie de lado femenino da divindade, que se vai socorrendo das formas de vida planetárias e das sociedades que criam para evoluir e escapar aos limites do planeta.

Estão a ver o que quis dizer por amontoado de ideias interessantes? Segredos da igreja e documentos secretos é coisa que pulula por aí em romances conspiratórios de maior ou menor sucesso. Até agora nunca me tinha deparado com nenhum que levasse a este nível a ideia de memes inteligentes que se propagam influenciado a criação de estruturas culturais. Mas, no que toca ao livro, esta não é uma caçada para encontrar o segredo. Estamos num futuro distópico, e este cenário é ao mesmo tempo o maior ponto de interesse e o elemento mais mal conseguido do romance.

Truong criou aqui uma intrigante especulação distópica. Imagina um futuro em que a humanidade vive enclausurada em contentores, acumulados em unidades de sobrevivência. Não há contacto humano, e os espaços exíguos contém tudo o que é necessário ao indivíduo, com uma grande dose de comunicação digital e virtual. A migração humana para as unidades de sobrevivência dá-se como consequência de uma pandemia global que por pouco não extermina a humanidade. As autoridades globais, em pânico, aprovam a lei zero-contact (pronunciem em francês, claro) e isolam a humanidade em contentores individuais. Só escapam os NoPlugs, rebeldes que insistem em viver na superfície planetária. A coisa não é tão simples como isto. As elites económicas e governamentais sobrevivem em cidades subterrâneas e estão a construir cúpulas nas principais cidades europeias e americanas que lhes permitam voltar a passear pelas largas avenidas e apreciar as caras mansões citadinas. Outro dos aspectos desta distopia é o secretivo pacto de Davos, que une a elite globlal num projecto secreto. Sim, sendo Davos, podem esperar algumas trafulhices dos 1%.

As inconsistência começam aqui. Truong descreve a humanidade sobrevivente dentro de pirâmides de contentores geridos por municipalidades que asseguram as necessidades básicas, mas aplica aos habitantes as leis de mercado. E o leitor pensa: em que é que ficamos? sobrevive-se num contentor ou aluga-se o espaço? O que é que acontece se a pessoa perde os rendimentos possíveis apenas através de uma plataforma online de trabalho? É que o autor não nos fala de bandos de excluídos das pirâmides.

À partida, esta concepção parece sólida, mas quando Truong insere uma linha narrativa determinante para a história a coerência colapsa. Esta envolve uma conspiração da élite global para submeter a China vermelha ao sistema de Davos. É estranho que o autor regresse à territorialidade do presente e nos dê uma imagem da China não como um conjunto de pirâmides de sobrevivência mas de cidades e territórios. A coisa envolve uma acusação massiva de pirataria, tensões com os EUA, uma invasão chinesa de Taiwan com demonstrações massivas de apoio nas ruas, uma escalada nuclear que resulta na atomização de Hong Kong e Shangai, e a inevitável rendição chinesa. O que não funciona aqui é que se no futuro a humanidade vive dentro de contentores, não faz sentido haver disputas territoriais, e muito menos manifestações de rua.

O elemento que vai aglutinar todas estas estruturas é a tal inteligência oculta que saltita de sociedade em sociedade. Esta descartou a igreja como vector e utiliza as élites globais como vector de transmissão. Graças ao desenvolvimento tecnológico vê a possibilidade de finalmente sair do planeta, mas para isso é preciso assegurar que os recursos económicos fluam na sua direcção, e não para alimentar as massas sujas de humanos que começam a ser descartáveis. Nasce aqui a ideia macabra posta em prática pelas élites de fazer um downsizing global da população, eutanizando os habitantes das pirâmides, reduzido a população à nova aristocracia dos 1% e seus servos clonados. O rendimento económico está assegurado pela total automação e aqueles que não pertencem a este sistema - essencialmente, toda a humanidade, são vistos com prejuízo económico.

Ficamos a saber tudo isto de forma desconexa, através da história de Calvin, o jovem protagonista que vivendo isolado no seu casulo tem a companhia fiel de um curioso grupo de amigos que se vai revelando ser mais importante do que aparenta. Há um velhote chinês, que se vai revelar ser o mítico líder da China comunista renovada. Uma mulher que o trata de forma maternal mostrar-se-á a sua mãe real (na sociedade dos contentores as crianças são geradas por inseminação artificial e retiradas cedo às mães biológicas), um tímido académico que lhe ensina tudo sobre a cultura global é uma desculpa do autor para ilustrar o processo maquiavélico de eutanização (diminuir rendimentos, criar dívidas e convidar ao suicídio assistido), e outro amigo de pendor académico irá revelar-se o guardião do segredo eclesiástico, e nada menos do que o corrente papa. O interesse em Calvin prende-se com a sua escolha como novo guardião do segredo e esperança da sobrevivência humana face a uma manipuladora entidade obscura que se prepara para descartar os incómodos macacos inteligentes na sua constante busca evolucionária.

Truong tece uma ambiciosa teia narrativa, tentando colar um conjunto muito intrigante de ideias. A distopia futura de uma humanidade isolada como resposta a uma pandemia é um bom princípio. A crítica ao neoliberalismo alastrante encarnada pela predação das élites globais e injustiças de uma economia autofágica que trata o trabalho como um recurso descartável é acutilante e pertinente. O conceito de meme inteligente como uma criatura obscura que vai parasitando a humanidade para sobreviver e evoluir intriga e abre possibilidades. Mas estes elementos não colam, há pouca atenção às inconsistências levantandas pela junção dos conceitos de base. A prosa é penosa, estendendo-se por um número elevado de páginas, boa parte das quais inúteis para a narrativa central. Chega a haver um desvio narrativo sobre um serial killer que se infiltra nos sistemas dos autómatos que permitem contacto sexual entre os habitantes dos casulos e esventra algumas vítimas incautas, que é levado a lado nenhum.

Surpreende que este livro tenha recebido a distinção de grand prix de l'imaginaire do ano 2000. Não é que este seja um péssimo livro, apenas um conjunto de ideias interessantes unidas por uma narrativa mal conseguida. Talvez nesse ano a colheita de romances de FC franceses tenha sido medíocre, e esta a obra que melhor se safava no meio dos crimes ecológicos e literários? A edição de bolso da FolioSF de 2012 foi a minha porta de entrada para este escritor de FC  francófona, que não faz jus à elevada tradição do género em língua francesa.

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