terça-feira, 30 de setembro de 2014

The Martian


Andy Weir (2014). The Martian. Nova Iorque: Crown.

O Robinson Crusoe tinha a vida fácil. Só tinha que se preocupar com as incursões aleatórias de canibais das ilhas vizinhas que iam à sua fazer festins de churrasco dos cativos, ou com as crises existências do Sexta-Feira. De resto, quer houvesse intempéries ou canículas, havia sempre restos do navio afundado, recursos naturais à disposição e ar fresco para respirar. Já para o astronauta encalhado em Marte deste curioso romance a vida é muito mais difícil, e apenas o seu engenho em aproveitar e contornar a falibilidade da alta tecnologia o separa da morte no planeta vermelho.

Se a fábula de Daniel Defoe espelha a visão iluminista do homem como senhor da natureza, graças à força dos braços e do pensamento, Andy Weir revê, talvez inconscientemente, este ideário à luz do optimismo tecnológico. No romance um astronauta tenta sobreviver em Marte após um acidente que o deixa encalhado no planeta. Cheio de recursos científicos mas especialmente mentais, consegue reaproveitar os recursos tecnológicos deixados na base que iria suportá-lo e aos colegas durante seis meses. Reapropria, cola, solda, desmonta e monta, num esforço para estender o apoio à vida e os mantimentos durante o período de tempo que irá decorrer até à próxima missão ao planeta. Engenhoso, encontra formas de comunicar com a Terra, mostrando que sobreviveu a um acidente que parecia ter sido fatal e mantendo a comunicação mesmo quando os meios falham.

A ideia de manipular recursos tecnológicos para sobreviver no ambiente marciano, sendo o que vai dando o percurso narrativo ao romance, não é a mais pertinente. Sobressai o ânimo psicológico de um astronauta que tendo todas as razões para desesperar se mantém sempre animado e cheio de recursos para enfrentar as adversidades da vida num planeta de ambiente hostil. Adapta o habitat, consegue misturar amostras de solo terrestre com solo marciano e fertiliza-o com as suas fezes para plantar batatas e assim aumentar a comida disponivel, utiliza pedras dispostas em código morse para que os satélites que monitorizam o planeta registem a sua presença, recupera a velha sonda pathfinder para poder comunicar via rádio com a Nasa através de um terminal, entre muitas outras situações que desafiam o seu engenho ao limite. No processo, não só consegue sobreviver no ambiente marciano como se desloca no planeta para chegar ao ponto de aterragem da próxima missão, embarcar na nave que aguarda os próximos astronautas, e fazer um rendez-vous na órbita marciana com os companheiros de missão que aceitam o desafio de regressar a Marte para vir buscar o astronauta encalhado.

Não é por acaso que o perfil psicológico é um dos elementos mais importantes do treino de astronautas, e Weir sublinha isso muito bem. A resiliência e engenho do seu personagem espelham bem o espírito dos astronautas, e está em consonância com as pesquisas que se fazem sobre missões de longa duração aos planetas. Aliás, este rigor científico e tecnológico é o grande ponto forte deste livro. Não há aqui tecnologias avançadíssimas de voos imaginários de space opera, com aventureiros corajosos a desbravar as selvas marcianas. Weir conhece claramente os estudos que se têm feito sobre missões a Marte com a tecnologia contemporêna, e espelha isso no livro. O modelo de exploração, com naves automatizadas a depositar na superfície recursos, equipamentos e veículos de escape que sintetizam o combustível a partir da atmosfera marciana, seguido de missões tripuladas que se abrigam em habitats insufláveis  com suporte de vida que recicla ar, dióxido de carbono, água e resíduos orgânicos mantendo um mínimo de conforto é não só plausível como possível, como têm apontado estudos da NASA, ESA e Mars Society. A tecnologia que Weir descreve é a de hoje, estando o brilhantismo na forma como o escritor a conjuga numa história ao mesmo tempo plausível e empolgante. E note-se que o autor não se coíbe de meter o seu astronauta nos mais variados sarilhos, levando ao limite a tecnologia e o engenho de que depende para sobreviver.

Plausível, com uma soberba pesquisa de base, empolgante e divertido, este romance é o melhor exemplo de Hard SF que li recentemente. Uma pedrada no charco de uma ficção científica hoje mais virada para o fantasista ou presa à repetição de modelos estereotipados. Não que venha daí mal ao mundo, uma vez que as fantasias de FC são uma delícia e os velhos modelos não deixam de nos divertir, mas este romance recupera de forma brilhante a tradição de especulação científica verosímil e informada, projectando um futuro próximo tecnicamente possível, embora socialmente, com as pressões austeritárias e o crescente desinteresse na exploração espacial, seja mais sonho do que realizável. Há muitos livros de hard sf que projectam numa contemporaniedade proxima ou futuros longínquos dimensões possíveis de desenvolvimento que espelham as problemáticas actuais, mas Weir faz algo mais fundamental. Pega nas tecnologias e possibilidades de hoje e constrói uma narrativa plausível, talvez com imperfeições literárias mas que se ultrapassam por ser uma boa história, bem contada, e assente num conhecimento enclopédico sobre as tecnologias que hoje poderiam levar-nos a pisar o solo do planeta vermelho.

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