sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Leituras


Why one New Jersey school district killed its student laptop program: Há muitas lições a tirar deste artigo. Mas antes de mais há que louvar a coragem dos administradores, que podiam ter deixado cair o projecto na obscuridade em vez de assumirem publicamente o falhanço. É que ao fazê-lo permitem reflectir sobre o que corre mal neste tipo de iniciativas, das quais suspeito esta não ser um exemplo isolado mas um caso muito típico. A notícia resume-se em poucas linhas: uma escola americana terminou o seu projecto de dotar todos os alunos com computadores portáteis ao fim de poucos anos porque a gestão técnica de avarias, danos e vírus se tornou incomportável, as vantagens educativas era pouco claras porque o uso em sala de aula era mínimo, a rede local colapsava debaixo do peso de utilizadores e a substituição e renovação de equipamentos se tornava excessivamente onerosa. Há ainda dois pormenores que se destacam. Os administradores escolares responsáveis por lançarem o projecto já não se encontram na escola e há um hábito de aderir a este tipo de iniciativas só porque sim, porque parece bem dotar todos os alunos de computadores.

Há aqui lições a tirar. Uma delas é a infraestrutura, porque para este tipo de projectos não basta só largar computadores e pronto. Há que gerir manutenções, prevenindo que os alunos não irão ficar tão deslumbrados como se pensa e irão tratar mal material que nos piores casos mesmo sendo-lhes entregue não vêem como deles, mas como algo descartável. Tive essa lição quando comecei a gerir portáteis na minha escola e via, com horror, os danos a acumularem-se devido à falta de cuidado deliberada de muitos alunos, aliadas à pouca vontade de vigilância dos professores. Quando reclamavam comigo sobre o mau estado de algumas máquinas, era sempre obrigado a sublinhar que os danos ocorriam em sala de aula acompanhados por professores responsáveis por actividades. E mesmo nas melhores condições irão haver sempre avarias e imprevistos que sobrecarregam o pessoal técnico (algo que por lá parece que existe mas por cá... bem, o professor é um profissional flexível. E elástico, por vezes).

A ideia de projectos que despejam computadores nas escolas é aliciante. As salas e os alunos ficam com equipamentos, e os vendedores de hardware ficam com sorrisos nos lábios. É a pedagogia Tech & Learning, alegremente patrocinada por quem interesses financeiros na questão. O problema é o depois. O que fazer com as máquinas. Que rendimento pedagógico tirar. Para isso são precisas ideias, formação e acompanhamento pedagógico. Algo que no projecto em causa não foi pensado e eu não consigo deixar de pensar no Magalhães e no PTE, que sim, dotaram escolas e alunos com equipamentos, mas deixaram a formação de professores de lado. Há uma espécie de espírito mágico, de suspensão de descrença, quando se fala de introduzir computadores em ambientes pedagógicos. Parece que basta dar máquinas para como que por magia estas sejam utilizadas para brilhantes aprendizagens. A história do Negroponte a largar tablets no meio de áfrica ilustra bem essa concepção. Não que pegar nas máquinas e dar-lhes a volta não seja uma experiência viável de aprendizagem, mas num ambiente pedagógico objectivo não é o suficiente e pode ser contraproducente. Sem formação e ideias de abordagem a coisa não vai lá, não passa do trocar o caderno diário pelo Word e promover apresentações em PowerPoint, na melhor das hipóteses. Geralmente é muito mais fácil culpar a suposta incompetência e falta de criatividade dos professores, aos quais, tal como as crianças, deveria bastar a simples aproximação a um processador para passarem a ter brilhantes estratégias pedagógicas. Diga-se que a este respeito o artigo sublinha a vontade de administradores ficarem bem e parecerem modernos, deixando os destroços para outros resolverem.

No fundo, é uma questão de estratégia. É a lição a retirar disto. Sim, os desafios da sociedade digital são reais, sim, a escola tem de preparar os alunos para o que de novo a tecnologia nos trás, sim, são precisos equipamentos. Podemos discutir a teoria das omeletes até ao infinito mas sem pegar em ovos e frigideiras a coisa não vai. O que falhanços como este, ou projectos de sucesso duvidoso como o Magalhães, nos ensinam é que o despejar de computadores nas escolas não só não resolve nada como cria problemas adicionais e acaba por ter valor pedagógico nulo ou reduzido. Fica bem na fotografia, dá um aspecto moderno à coisa, mas mal disfarça o vazio. Se não houver uma estratégia bem pensada por detrás, que inclua não só o equipamento mas essencialmente contemple para o que vai ser utilizado, as possibilidades de sucesso são maiores. Com ideias e formação o computador tem uso garantido em ambiente pedagógico e não apenas como máquina de jogo aos intervalos. Sublinho que não vejo qualquer problema nisto dos jogos. Os computadores são máquinas de uso geral, tanto servem para o lúdico como para o trabalho. O problema está na escola não conseguir encontrar estratégias em sala de aula, algo que só se consegue com formação, debate e troca de ideias e experiências.

Ah, sincronismos. Apareceu ontem no Medium um artigo curioso que reflecte precisamente nesta questão. A tecnologia por si só não potencia nada, e a observação tem mostrado que sem estratégias de abordagem não há melhorias significativas nos desempenhos, bem como na redução de assimetrias entre crianças de meios mais favorecidos e menos favorecidos.

As coisas não são tão cinzentas quanto isso e os professores, essas flexíveis criaturas, lá conseguem encontrar estratégias para conseguir incorporar computadores na sala de aula. Alguns até agradecem que lhes despejem equipamentos, facilita o trabalho e permite pôr em prática ideias mais arrojadas. Mas o conceito sistémico de despejar computadores nas escolas para por si só potenciar aprendizagens apenas beneficia quem fabrica e vende computadores. Por outro lado, equipar escolas é um passo necessário e que beneficiaria se fosse pensado em termos cíclicos. Pessoalmente aterroriza-me que o PTE tenha largado computadores e saber que esses equipamentos têm vida útil, que no ambiente tecnicamente agressivo das escolas essa vida útil reduz-se, e que no corrente estado das coisas a perspectiva de renovação sistémica do parque informático é nula. Ou como às vezes ouço de ex-alunos: esses computadores ainda funcionam? Ainda. Mas dá trabalho, muito, de vigilância à infraestrutura, manutenção, e responsabilização positiva. O meu lado de administrador dos sistemas de uma escola sente toda a compaixão por aqueles que neste projecto tiveram de levar todos os dias com portáteis avariados, desconfigurados, danificados ou contaminados. É que não é fácil. A tecnologia não é nenhuma varinha mágica que resolve problemas com um agitar e um encantamento. Não é infalível, é frágil e avaria. Entretanto parece que o abandono não foi completo, tendo os responsáveis técnicos optado por centralizar as máquinas na escola. Percebe-se. Perdem-se as vantagens de ter a tecnologia individualizada mas permite uma melhor gestão de recursos.

Like Clueless Guinea Pigs: A física social, aparentemente, é uma tendência. A ideia é utilizar apps como portas de acesso a um imenso manancial de dados que permitam dar aos utilizadores empurrões gentis para que este modifiquem e melhorem comportamentos. Com o valor acrescentado da rede social, em que ver amigos a fazer determinadas acções aumenta as probabilidades do utilizador as fazer. Uma variante cheia de bonomia do clássico a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha, livre da inveja e motivando cada um a esforçar-se por melhorar a sua galinha, resultando num ciclo global de reforço positivo. Parecem boas intenções. Usar a big data, uma versão bondosa da pressão do pares e os sensores nos nossos dispositivos móveis para termos um dia a dia mais saudável, produtivo e enriquecedor parece um objectivo social atingível. Se por nós somos preguiçosos ou poderemos não ter a motivação necessária para melhorar, as apps e os dispositivos podem ajudar a tomar decisões mais correctas, a vigiar comportamentos potencialmente nocivos para a saúde e melhorar o desempenho cívico. Parece tão bem, não parece? Um elevado e sadio objectivo social a atingir, certo? Ou talvez não. A mesma tecnologia que nos liberta de vícios (e note-se que a definição do que constitui "vício" depende de quem a define) também nos vigia e controla. Confiar as nossas decisões a apps e tendências detectadas em quantidades massivas de dados significa relegar decisões para padrões de pensamento externos, decidindo de acordo com as necessidades de quem programa os algoritmos. No fundo, como Evgeni Morozov explica muito melhor do que eu, encarreirar sorridentes no que é de facto um totalitarismo enquanto as organizações que nos tutelam ou rodeiam se embrenham em cada vez maiores níveis de secretismo. O paradoxo da tecnologia digital é que o que nos dá maravilhas impensáveis para o nosso dia a dia também pode ser usado como sonho húmido dos tiranos e ditadores. Ou apenas os sonhos gananciosos daqueles que colocam o lucro pessoal e os mercados acima das pessoas.

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