terça-feira, 5 de agosto de 2014

Haarmann Le Boucher de Hannover


Peer Meter, Isabel Kreitz (2011). Haarmann Le Boucher de Hannover. Paris: Casterman.

Herr Haarmann é um homem de confiança. É certo que tem tendências invertidas e hábitos misteriosos, mas não há como ele para arranjar carne fresquinha e barata nos tempos de carestia da Hannover dos anos 20. Carne e roupa para rapazes, que também não é coisa fácil de encontrar a baixo preço. Pode lá ter os seus hábitos estranhos, mas os vizinhos nunca se esquecem de lhe dar uma palavrinha para garantir um naco de carninha a bom preço. Alguns queixam-se de que tem um sabor estranho, algo adocicado, mas enfim, o preço é mesmo muito bom. Herr Haarmann não tem um talho, mas pelo que parece há alguém que lhe vende a carne na estação.

Herr Haarmann é mesmo um tipo de confiança. Apesar de ter um passado não mencionável nos relatórios, tem um cartãozinho de polícia honorário. Parece que faz muito jeito ao comissariado para meter o nariz onde os homens de uniforme espantam a população. E é mesmo bom tipo. Na estação de comboios está sempre disponível para ajudar jovens rapazes que andam à deriva ou perderam o comboio.

É curioso que ao dragar o canal mesmo ao pé da casa de Herr Haarmann se andem a encontrar ossadas de dezenas de pessoas. Talvez vítimas de uma epidemia de tifo, atiradas ao rio por pessoal médico em pânico, como quer fazer crer a polícia. Mas começa a desenhar-se outra hipótese. Talvez ande à solta um inclemente assassino que se livra das suas vítimas nos rios. Herr Haarmann costuma deitar ao rio grandes vasilha de água avermelhada. E há um detective um bocadinho chato que desconfia dele. Mas nada se pode fazer, até porque não se quer. Afinal, ele tem um cartãozinho da polícia, e a polícia não passa cartão a quem não seja de confiança, não é verdade? E os vizinhos pensam na carninha tenra e fresquinha, nas salsichas saborosas, nas roupas a baixo preço.

Nenhum criminoso, especialmente se pouco inteligente, consegue passar impune durante muito tempo. E Herr Haarmann é afinal um monstro saído dos piores pesadelos. Assassino em série, especializado em violar, matar e desossar jovens rapazes extraviados que captura na estação central. Com sentido para o negócio. As roupas vendem-se, e a carne enche os pratos de muitos dos seus vizinhos. A bom preço.

Romance gráfico sobre a história real do assassino importalizado como o vampiro de Hannover, distingue-se pela elevada qualidade narrativa. Sabemos como a história vai acabar, por isso o argumentista centra-se na cegueira auto-induzida dos habitantes da cidade. O grafismo é excepcional, com um estilo a preto e branco que transforma as velhas ruas, arrasadas durante a II guerra, num claustrofóbico espaço com um toque goticista.

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