sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Dylan Dog: L'impostore; Leggende urbane; La fuggitiva.


Alessandro Bilota, Nicola Mari (2013). Dylan Dog #317: L'impostore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Desde que Poe solidificou o conceito de doppelgänger como uma das estruturas do horror clássico no conto William Wilson que este artifício tem sido usado e abusado. Esta aventura de Dylan Dog não é excepção. Uma série de assassínios misteriosos em que as vítimas são mortas por sósias seus acaba por ser revelado como a psicopatia de um especialista em maquilhagem cuja atracção pelo copiar de personalidades se iniciou ao matar o irmão gémeo na adolescência. Argumento mais de policial do que fantástico por Angelo Bilotta, com alguns toques de ironia certeira, mas destaca-se a ilustração muito gótica e elegante de Nicola Mari. Não é usual que no fumetti o trabalho do ilustrador ultrapasse as linhas-guia gráficas dos personagens. Aliás, boa parte deles são indistinguíveis uns dos outros, e é raro ver um estilo gráfico personalizado num personagem com o historial editorial como o de Dylan Dog.


Giovanni DiGregorio, Ugolino Cossu (2013). Dylan Dog #318: Leggende urbane. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

É raro, neste Dylan Dog mais recente, encontrar alguma edição que volte a capturar o onirismo mágico do melhor de Tiziano Sclavi. É o caso destas lendas urbanas, aventura de mitos que não faz grande sentido lógico mas se lê como um acumular do imaginário de alguém que escreve. Aliás, é assim que começa e termina a aventura, com palavras dactilografadas numa máquina de escrever eléctrica. O que à partida parece um relato termina como uma meta-ficção sobre o poder das histórias e a necessidade humana de acrescentar pontos aos contos. A aventura é um acumular de mitos urbanos. Crocodilos nos esgotos, motociclistas que sobrevivem a despistes mas cuja cabeça se abre ao tirar o capacete, jovens raparigas que pedem boleia para a porta de cemitérios onde se desvanecem, cadáveres que acordam durante autópsias, cartas em cadeia mortíferas, rins roubados após noites de amor com mulheres desconhecidas. Um catálogo de histórias incríveis em que juramos não acreditar mas há algo nelas que nos inquieta, memes que se propagam, vindo ciclicamente à tona nas conversas da vida urbana. Deliberadamente difusa, questionando continuamente o real e o ficcional dentro do espaço narrativo da ficção, regressando ao horror onírico de outros tempos, esta aventura do old boy onde age realmente como indagatore dell'incubo é uma excelente surpresa.


Giovanni DiGregorio, Maurizio Di Vincenzo (2013). Dylan Dog #320: La fuggitiva. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Há um momento na história em que esta ameaça tornar-se interessante. Dois mundos, a Londres real dos anos 90 da série e uma espécie de fantasia medievalista quase colidem nas páginas de uma aventura em que Dylan tenta ajudar uma mulher que vive na ilusão de conter um monstro diabólico dentro de si. Mas não passa de ameaço. A desconexão mantém-se, a coisa desliza para o policial psicológico e as alucinações da mulher ficam-se por desculpa para desenhar ruas da idade média. Um momento pouco conseguido da história editorial do indagatore dell'incubo.

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