sábado, 23 de agosto de 2014

Bestiário


Julio Cortázar (1986). Bestiário. Lisboa: Dom Quixote

Suspeito que me será difícil não comparar Cortázar a Borges. Não sei se serão comparáveis ou não, se têm mais em comum para além de Buenos Aires e a Argentina. Se Borges encanta pelo lirismo de aparente aridez académica, deslumbrado pelo mundo das ideias expressas em tomos poeirentos, Cortázar dá-nos a vida. Acontecem pequenos mistérios, ocorrências estranhas, assombrações interiores, obsessões funestas, mas sempre centradas nas pessoas, retiradas à normalidade das suas vidas pelo olhar onírico do escritor. Um fantástico humanista, que questiona a estranheza da alma humana e a sua percepção do mundo. Um autor a descobrir, naquela ponte difusa entre as literaturas do imaginário e as leituras sérias, e estes contos de 1951 são uma bela porta de entrada para um onirismo de normalidade ilusória.

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