terça-feira, 1 de julho de 2014

The Violent Century


Lavie Tidhar (2013). The Violent Century. Londres: Hodder & Stoughton.

A herança judaica de Tidhar pesa bastante neste livro. Não surpreende. Como israelita, a sensibilidade está apurada para os horrores do nazismo e da shoah, que assombram o cenário narrativo apesar de não serem o seu centro. Tidhar revê o deslumbre contemporâneo com mitografia do super-heróis num romance que redescobre um século XX marcado pela violência militarista.

Há que deixar aqui uma questão. Porquê este deslumbre contemporâneo por um género de banda desenhada algo patético que surgiu como resposta editorial às pressões censórias sobre a indústria dos comics? Talvez nostalgia dos leitores, talvez a influência iconográfica do cinema de massas cujos efeitos especiais prometem dar realismo ao super-humanismo quadricromático? Talvez seja uma resposta a sentimentos de impotência humanista face à hipermodernidade contemporânea, alimentada pela tecnologia? O que é facto é que de nicho gráfico o género se popularizou e está tão entranhado na cultura popular que já atingiu o patamar de ironia referencial, que hoje está tão em voga.

Esta ironia vislumbra-se um pouco no romance, mas, tal como o espectro da shoah, não se torna o tom dominante. Apresenta-se nalguns momentos, como a homenagem ao colorido da golden age recriado no Dia D, ou num estudo proibido que categoria os super-humanos conhecidos, da autoria de uns tais Siegel e Shuster. A narrativa em si prende-se com as pulsões que animam seres com poderes estranhos, não afectados pela passagem do tempo embora não seja imortais. Um pouco como a eterna repetitivade e reinvenção dos comics, aqui recortada contra a história violenta do século XX.

Esse olhar inicia-se nos dramas da II guerra, que têm continuidade em conflitos posteriores que sublinham a diluição ideológica dos absolutos que definem épocas. Peões dos governos, agentes mais ou menos secretos, eternos genocidas nas guerras intermináveis. Para quem atravessa a história com poderes especiais, as cíclicas emergência e arrogâncias dos momentos tornam-se um borrão entediante. Tão entediante que um dos personagens, um cinzento operacional dos serviços secretos, começa a procurar uma forma de reverter o processo que conferiu super-poderes aleatórios a parte da humanidade. Em mais uma vénia de Tidhar ao jargão para-científico do género, experiências de física quântica levadas a cabo por um cientista alemão nas vésperas da II guerra deram origem a um evento global que despertou poderes em indivíduos ao acaso. E a chave está na filha do cientista, a primeira a ser exposta à onda quântica, cujos poderes nunca se revelam mas que se manifestam como um laço temporal que talvez permita ir ao passado impedir o evento, cortando pela raiz o tédio dos imortais.

Tidhar constrói uma mistura eficaz de vénia a um género com elementos reflexivos sobre a história do século XX. Fá-lo num estilo diferente do seu habitual, com frases curtas e ritmadas que custam um pouco a apreciar. O ritmo do romance é rápido, saltitando entre presentes e passados numa aplicação inteligente da mudança temporal de ponto de vista como forma de construir um puzzle ficcional. Mas após a leitura ficou a sensação que o livro está um pouco aquém do imaginário de Tidhar. Concentrado na criação de um ambiente soturno, acaba por dispersar a ironia e o deslumbre com o género que, contra todas as expectativas, se tornou marcante.

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