terça-feira, 10 de junho de 2014

Maxi Dylan Dog #16


Correndo o risco de me repetir, há dois Dylan Dogs bem demarcados. Há o personagem criado e escrito por Tiziano Sclavi, que ultrapassa os limites da BD comercial e entra nos campos do surrealismo e fantástico literário. E há Dylan Dog como propriedade intelectual, personagem de série regular, entregue a argumentistas que o vão utilizando para manter viva a série. Aqui o personagem banaliza-se, ficando ao nível de tantos outros. Algumas das histórias são interessantes, contos bem montados do sobrenatural, outras banais, mas falta-lhes a faísca de fantasia que Sclavi imprimia à sua criação.

Isso nota-se bem neste Maxi, que colige três aventuras escritas pelo competente Luigi Mignacco. Competente, mas não brilhante. São histórias que divertem, mas falta-lhes a profunda tessitura de Sclavi, as referências literárias, e substituem o sentido do mágico por uma aplicação das estruturas literárias do horror.

Em Gli Spietati Dylan cruza-se com um bando de taciturnos sado-masoquistas que dão caça implacável a uma mulher misteriosa. Desenrola-se como uma versão spaghetti dos perigos na auto-estrada, com Dylan e a vítima a fugir de um veículo tripulado por três sado-masoquistas infernais nas suas máscaras de couro. No final percebemos que a missão destes seres é trazer recém-falecidos incapazes de compreender o seu destino de regresso ao mundo dos mortos.

Será que Dylan encontra um rival à altura na figura de um aristocrata snob que parece suplantá-lo na resolução dos mistérios fantasmagóricos? Em L’Avversario Um jovem aristocrata insinua-se junto de Dylan, gerindo com uma fria superioridade os seus recontros com almas penadas. Mas a relação torna-se mais complexa quando Dylan se aperceber que o distanciamento é uma forma de uma alma solitária pedir ajuda para a levar a aceitar a inevitabilidade da volta.

Para terminar, uma boa dose de giallo sangrento com demónios e bonecas de vodu de Dritto al Cuore. Um vendedor de brinquedos faz sucesso a vender bonecos onde quem quiser libertar frustrações pode espetar  instrumentos afiados. Mas essas acções aparentemente inócuas tornam-se assassínios bem reais. À partida o culpado parece ser o vendedor, que se dedica a esfaquear aqueles com que os seus clientes estão irritados, mas um intrigado Dylan envolve um feiticeiro vodu e descobre que há um espírito maléfico a animar os bonecos.

Histórias competentes, divertidas, bem ilustradas. Mas lamento, talvez seja falha minha, talvez admire demais o trabalho de Sclavi, mas não consigo sentir a faísca que separa o excepcional do normal neste Dylan Dog. Não deixa de ser o mais interessante personagem de fumetti correntemente editado, cujas aventuras sabe bem seguir, mas que se lê mais pelo gosto pelo conceito do personagem do que pela forma como é escrito.

Sem comentários: