quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ficções

The Litany of Earth - Contos de tom lovecraftiano a mexer com os mythos de Cthulhu é algo que abunda e poucas vezes surpreende. No seu melhor despertam algum sorriso pela interpretação que dão à inconografia dos grandes anciães e deuses tentaculares adormecidos sob o oceano, mas honestamente, se querem ler algo lovecraftiano fiquem-se por Lovecraft e seus contemporâneos. O que torna este conto intrigante e interessante é a inversão que faz às estruturas narrativas. Esta não é uma história sobre monstros deformados seguidores de cultos inomináveis que ameaçam a humanidade. É o seu preciso oposto. Os habitantes ícticos de Innsmouth foram arrebanhados pelo mesmo governo americano que internou os cidadãos de origem japonesa na II Guerra. Os mais sortudos ficaram-se pelo campo de internamento, e outros foram objecto de horríficas experiências científicas. Anos depois, os sobreviventes diluem-se na sociedade, alvo da curiosidade daqueles que se interessam mais pelos esoterismos tenebrosos. É neste contexto que nos é contada a história de uma herdeira de Innsmouth, afastada das suas raízes pelo governo americano que é contratada pelo FBI para se infiltrar, vigiando, num grupo de humanos demasiado apaixonados pelo misticismo antediluviano. Estes transformam a lendária cidade à beira-mar da Nova Inglaterra num novo santuário, onde tecem litanias em linguagem algaraviada aos deuses que a protagonista tão bem conhece. Uma boa surpresa online na TOR, de Ruthanna Emrys.

The High Speed Bet - Robert Goddard foi um dos pais da astronaútica e pioneiro dos foguetões, e isso nota-se neste conto publicado em 1914 na Scientific American, recentemente redescoberto. Suspeitei que uma história às voltas com apostas sobre métodos de transporte rápido entre cidades envolvesse foguetões, mas não, Goddard dá-nos o que de facto é uma experiência conceptual sobre comboios em tubos de vácuo. Sobre as suas virtudes narrativas, bem, Goddard era cientista de foguetões e isso nota-se. É um intrigante artigo de especulação científica que se lê como uma história com o seu quê de soporífera.

N'existe Pas: Já longe vão os tempos de Bruce Sterling como aguerrido escritor cyberpunk. Assumiu o manto de guru da era digital e atingiu uma influência nos espaços mediáticos que se calhar não lhe seria possível apenas como romancista. Vale muito a pena prestar-lhe atenção, apesar de só publicar regularmente na Wired e no seu Tumblr, porque não deixa de intrigar e ter o dedo firme no pulsar da hipermodernidade contemporânea com uma dose de enorme deslumbre sobre o espaço europeu contemporâneo. Já a sua ficção, a que ainda vai fazendo, lê-se como uma derivada das suas observações sobre a cultura tecnológica. É o caso desta história de quatro personalidades do panopticon digital, um espião, um paparazzo, um agente secreto e uma activista refugiada da primavera árabe, que se reúnem num café parisiense à caça de escândalos com os amores ilegítimos dos políticos locais. Acaba por ser mais reflexão em tom de humor mordaz sobre a cultura da internet, hipervigilâncias, escândalos de espionagem e, porque Sterling não deixa de ser texano, um reflexo do seu deslumbre pela euro-diversidade. Não é essencialmente diferente do seu discurso de encerramento do SXSW, onde reflecte sobre o impacto wikileaks-snowden-NSA e nos avisa, na sua voz arrastada do alto do púlpito, this will not end well. O conto é uma variação sobre os temas queridos aos technodigerati, com o habitual fascínio optimista de Sterling sobre a difusa fronteira entre futurismo e realidade contemporânea. Mas não deixa de ter belíssimas visões intuitivas que descrevem perfeitamente as novas realidades difusas. Porque a normalidade é hoje estatística mas indefinível: “Once you start surveilling everybody in a population, it’s obvious that normality is a myth.” The paparazzo sipped dense black caffeinated poison from his demitasse. “How do we know that anyone has ever been ‘normal’? Forget Facebook, and Google, and their heaps of so-called ‘big data.’ This is a basic issue of ontology. We have no formal proof that ‘normality’ exists. Outside of mere user statistics, of course.” Ou as complexas dimensões sociais da primavera árabe: "I’m a committed Syrian dissident! I was a Facebook blogger during our Arab Spring, but that was all under my nom de guerre, of course. That’s why I’m still alive. I barely made it here to exile before the Syrian Electronic Army got me.” Ou sobre as geografias digitais da Google: “Did France invade Mali?” said Johanna wonderingly. “Where is Mali?”“I’ve got a Google map here on my iPhone,” said the American. “Let me show you Mali. It’s just south of the smoking wreckage of Libya.”

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