sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ficções


Viy: Gogol inspira-se no folklore ucraniano (que designa, com palavras que hoje têm um sabor muito actual de pequena rússia) para criar uma história arquetípica de bruxas amaldiçoadas, assombrações e monstruosas criaturas do além que se esconde nas sombras do mundo. Após se conseguir livrar de uma bruxa, um pobre seminarista é contratado por um aristocrata para velar o corpo da sua recém-falecida filha durante três noites. A rapariga tinha relações com o saber oculto da bruxaria, dizem os servos da casa, corajosos cossacos que empalidecem perante a menção de certos factos. As três noites que o solitário seminarista passa na cripta, a velar e orar sobre o belo cadáver da jovem, são paroxismos de horror em que a desmorta tudo tenta para aniquilar o aterrado seminarista. E consegue, após três noites de invocação de espíritos e horrores infernais, quando Viy, rei dos gnomos, é chamado à cripta pelas palavras obscenas saídas dos lábios vermelhos sem vida da bruxa. Mas a manhã desponta, e as criaturas demoníacas são transformadas em pedra pela luz do sul que banha uma capela destinada a ficar esquecida no meio da floresta, local amaldiçoado abandonado por todos. O tom de mistura de superstição, tradição e terror gótico sublinha o carácter influente deste conto clássico, que posteriormente se veio a tornar a base de vários filmes, entre os quais o clássico Black Sunday/La Maschera del Diavolo de Mario Bava.

Steel Snowflakes in My Skull: O surrealismo mágico de Tom Piccirilli a transformar um relato de recuperação pós-operatória. E se a implantação de placas metálicas no crânio, procedimento cirúrgico banal, despertasse consciências metálicas na mente do paciente?

The Universal Library: Antes de Jorge Luís Borges nos fazer sonhar com a sua inesquecível Biblioteca de Babel, que contém todos os livros jamais escritos com todas as combinações possíveis de palavras, Kurt Lasswitz, pai da ficção científica alemã, postulava esta possibilidade no conto The Universal Library. Se Borges é literato, Lasswitz segue a via da postulação matemática na forma de uma conversa entre um jornalista e um matemático que calcula quantos livros incluiria a biblioteca e o espaço necessário para a albergar. No caminho, fica uma frase que se escrita há mais de cem anos não fica nada mal nestes tempos presentes em que se especula sobre a possibilidade de geração algorítmica de textos: "This will furnish me with all the future volumes of my magaine; I won't have to read manuscripts anymore. This is wonderful for both editor and publisher: the elimination of the author from the literary business! The replacement  of the writer by the automatic printing press! A triumph of technology!". Soa familiar, não soa?

On The Soap Bubble: Quem nunca fantasiou com os mundos microscópicos que poderão existir nos mais minúsculos detalhes do real? Kurt Lasswitz não se atreve a imaginar universos dentro de átomos, mas leva-nos ao interior de uma bola de sabão, soprada pelo neto de um inventor que criou uma substância capaz de encolher aventureiros e levá-los à descoberta das selvagens vastidões que se ocultam nos recantos microscópicos. Efémera à nossa escala temporal, a bola de sabão alberga uma civilização que se desenvolve e se virá a extinguir naquilo que dentro do universo de sabão são eões mas para nós poucos segundos. Uma visão poética, a anteceder ficções literárias e filmes sobre os exploradores dos mundos que se ocultam nos interstícios da realidade microscópica.

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