sexta-feira, 4 de abril de 2014

Ficções



Alfa 33 e o Enigma das Caldas: A história do Estado Novo é terreno fértil para aproveitamentos ficcionais, e é de surpreender que para além dos registos clássicos da luta anti-fascista ou de alguma nostalgia pelo antigo regime este filão de ideias não seja mais aproveitado. Particularmente pela ficção de género, que teria aqui espaço para narrativas de história alternativa ou pulp fictions de 007 à portuguesa. A eterna proposta de série televisiva Capitão Falcão aproxima-se disto, mas os modelos que realmente a inspiram estão na televisão clássica de Batman e Green Hornet com paródia à iconografia do Estado Novo.

Já Renato Carreira, com as suas aventuras de Alfa 33, o mais luso e másculo dos agentes da moderna PIDE, segue um caminho diferente e muito interessante. O tom é de pura história alternativa, num futuro distópico onde um Estado Novo triunfante domina a metrópole e as colónias, após subjugar os turras revoltosos à força de bombas atómicas e esmagar a revolta dos capitães. O mundo admira a força lusitana, e a sabedoria do regime que tudo faz para manter na paz beatífica da portugalidade tradicionalista. E quem se atrever a contestar o regime, quem insistir em ser comuna, invertido, ateu, ou ter qualquer comportamento desviante tem de se haver com a alta tecnologia da PIDE e os intrépidos agentes, dos quais Alfa 33 é de todos o maior. Nesta aventura terá de investigar o mistério dos materiais que transformam estátuas da virgem Maria piedosamente manufacturadas por uma ordem conventual nas Caldas da Rainha em portentosos falos. O tom de sátira é perfeito, assente numa bem humorada mas congruente visão de história alternativa que vai buscar especulação historiográfica e ficção pulp de espionagem ao estilo dos filmes de James Bond para nos levar a sorrir com um carácter português que foi... e talvez hoje esteja a regressar. E sublinhe-se que é sátira muito inteligente, mesmo com certos momentos histriónicos.

O Reflexo da Morte (ou da Vida) nas Janelas do Rio: Conto de Olinda Gil que é um pequeno hino à Lisboa ribeirinha, num registo poético intimista. Deixa-nos na mente as imagens do Tejo a brilhar sob o azul que é tão especial do céu de Lisboa, enquanto o casario se espraia em telhas vermelhas e paredes de cal colorido das colinas à beira rio.

Fim da Era da Razão: Vou arriscar e dizer que a autora deste conto ou mantém o espírito de adolescente, ou quando o escreveu estava embrenhada nesse sempre interessante momento da vida, onde aprendemos a definir-nos perante o mundo. Escrevo isto com seriedade. É refrescante ler algo tão hiperbólico onde transparecem fortes pulsões de revolta, que se sente neste trabalho de Liliana Novais. A história em si é simples, os primórdios de um futuro distópico onde os governos mundiais se conluiam para eliminar os livros, e por acréscimo os intelectuais e todos os que pensam por si. Pois, já perceberam o que é que eu quis dizer com o que escrevi mais acima. O conto mistura 1984 com Farenheit 451 e história do nazismo. O que falha é a linguagem narrativa, muito fragmentada e com algumas incoerências. Os elementos estão cá, mas precisam de mais trabalho. Mas não deixa de ter duas das mais acutilantes observações sobre o estado contemporâneo das coisas, no fundo algo de óbvio mas que deveríamos afirmar mais vezes: "Todos os dias o governo inventava uma desculpa nova para as suas acções, fugiam das perguntas dos jornalistas como o diabo foge da cruz.". E mais à frente encontramos "A população, já sem forças para lutar, deixou as coisas avançar, baixaram os braços e desistiu. “Que seja como eles querem.” Ouvia-se pelas ruas. “Nós nada podemos contra eles. São mais poderosos e mais fortes.” Soa familiar, nestes tempos de austeridade ideológica imposta em nome da salvação das maiorias que não sabem o que é melhor para elas?

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