terça-feira, 25 de março de 2014

Revista Trasgo #02


Rodrigo Van Kampent, et al (2014). Trasgo Ficção Científica e Fantasia #02.

A segunda edição da Trasgo consegue manter o nível de qualidade da primeira. No seu conteúdo podemos assinalar uma diversidade de vozes que nos trazem o gosto exótico de ler ficções fantásticas numa língua que, supostamente igual à nossa, tem variações suficientes ao que consideramos normal para que quase saiba a algo muito diferente. Esse é um dos pontos de interesse desta colectânea que nos chega do além-atlântico. Confesso que sabe bem ler FC e Fantástico de tom lusófono. Como curiosidade, refira-se que Van Kampen termina o seu editorial convidando-nos a mergulhar na leitura com um sonoro allons-y. Whovianos. Há-os nos sítios mais suspeitos.

É mantida a estrutura de contos e entrevistas aos seus autores, que nos revela um pouco das suas inspirações e motivações. Também inclui um pequeno portfolio do ilustrador da capa, Alex Leão, e é intrigante ver que a belíssima capa foi criada em pintura digital utilizando um tablet.

Rosas, o conto de Ana Merege que abre esta publicação, é uma deliciosa surpresa. A narrativa em si não trás nada de novo, mas é uma muito elegante e bem feita variação do conto clássico tenebroso, onde o crime macabro e as suas motivações dão o tom soturno a uma história que, fiel aos pressupostos deste género de contos, termina com uma surpresa que encaixa e completa o puzzle narrativo.

O vasto foco de Cinco Bilhões, conto de Victor Faria, é admirável. Tem o seu quê de space opera à escala cósmica misturada com paradoxos temporais, oscilando entre quase inconcebíveis futuros distantes onde a humanidade é um constructo biológico criado por inteligências artificiais que têm no cerne da sua programação a tarefa de preservar a vida humana biológica, e um tempo presente em que as futuras IAs ainda mal passam de esboços na mente dos seus criadores. A escala temporal é vasta, levando-nos do futuro onde o sol se aproxima da sua extinção final ao nosso presente contemporâneo. Posto isto, a execução narrativa deixa muito a desejar. A narração é fragmentada, com pontos de vista difusos. Por si isto não seria problema se a escrita fosse mais fluida e elegante.

As modas bibliográficas que desvirtuam clássicos com novas roupagens tidas como sexy, apelativas ou actualizadas são satirizadas por Jim Anotsu em Hamlet: Weird Pop. A encenadora de uma versão hipsterizada de Hamlet tem de enfrentar um Puck, advogado de um além onde o espírito de Shakespeare utiliza as armas da legislação sobre direitos de autor para travar uma interpretação que lhe desagrada de um dos seus textos.

Toques da ciência fora de controlo de Frankenstein, visões apoquentadoras da biotecnologia e um sabor à FC clássica onde cientistas loucos se deleitam a trocar os cérebros entre corpos das suas vítimas colidem em Código Fonte. No conto de George Amaral cientistas reclamam ter encontrado o segredo da imortalidade e da eterna juventude, só que o preço dessa fonte da juventude implica a trasnferência da mente de velhos para o corpo de jovens. Para tornar as coisas mais óbvias o autor coloca uma referência directa a Ponce de Leon numa das suas personagens.

O emergir contemporâneo de FC e fantástico com sensibilidades globais, que ultrapassam a tonalidade anglo-americana que associamos ao género, sublinha um certo carácter uniforme nas abordagens e temáticas. As variantes locais repetem as iconografias globais, com variações de diversas profundidades. O conto A maldição das Borboletas Negras surpreendeu por conseguir ser uma obra sólida de fantástico no seu sentido mais clássico e remeter para sensibilidades e mitologias que o afastam do tradicional corpus do género. Quer o tema quer a linguagem narrativa replicam um folclore sincrético inigualavelmente sul-americano, mistura em turbilhão das tradições índias, das lendas trazidas pelos migrantes de vários continentes e memórias colectivas do tempo dos bandeirantes. Há aqui um monstro, que oscila entre o aterrorizante e o patético, e o seu emergir cíclico e telúrico é o tema deste conto que se torna mais delicioso por usar uma linguagem regionalista brasileira. A obra de Albarus Andreas é, de longe, a melhor surpresa desta segunda edição da Trasgo.

Para terminar, um regressar ao conto clássico de sabor pós-apocalíptico com O Homem Atômico de Cristina Lasaitis. É uma narrativa directa, um contar de uma ascensão e queda de quem aparenta ser um sem-abrigo mas acaba por se revelar um profeta de destruição, radioactiva no caso.

A Trasgo pode ser lida online e descarregada no site da revista.

2 comentários:

Rodrigo van Kampen disse...

Olá, Artur!

É ótimo ler uma resenha vinda de Portugal, ainda mais tão completa quanto a sua.

Muito obrigado pelo post e pela ajuda na divulgação da Trasgo!

Um abraço,
Rodrigo

artur coelho disse...

ora essa. excelente trabalho, o vosso. para além do vislumbre do vosso panorama de FC&F ainda há que valorizar o tom globalista do género. não é só em inglês que se escreve ficção fantástica.

por isso, allons-y, com ou sem chaves de parafusos sónicas ;)