sexta-feira, 7 de março de 2014

Nemo: The Roses of Berlin


Alan Moore, Kevin O'Neill (2014). The League of Extraordinary Gentlemen - Nemo: The Roses of Berlin. Londres: Knockabout.

Sendo fã quer de Moore quer desta série a minha opinião é à partida suspeita. Estou predisposto para apreciar a continuidade das aventuras de Moore e O'Neill neste mundo enciclopédico de referências à ficção fantástica popular. Este The Roses of Berlin não desilude e consegue continuar a manter muito elevada a fasquia da série.

Moore pega-nos pela mão e mergulha-nos numa Berlim onde colidem as iconografias artísticas populares e eruditas da primeira metade do século XX. Há traços de Weimar, com Kevin O'Neill a canalizar na perfeição o estilo obsceno de consciência social de George Grosz em vinhetas que replicam os seus quadros marcantes. Mas o foco é Berlim, não como cidade ficcional imperialista ao estilo de Albert Speer mas antes como pesadelo expressionista onde a multiplicidade de planos do filme Dr. Caligari irrompe no tecnicismo de Metropolis. É nesta cidade de pesadelo, hino aos sonhos perversos do industrialismo, que reina o ditador tomaniano que unificou as alemanhas e se lançou numa guerra pela conquista da Europa. Heil Hynkel!

Estas são as referências mais óbvias. Berlim é de facto representada como a Metropolis do filme homónimo de Lang, os sonâmbulos controlados pelo Dr. Caligari foram promovidos a stormtroopers implacáveis de baba a escorrer pelos lábios, o Dr. Mabuse continua a gostar de elaborados jogos de decepção criminal, e se Rotwang faleceu a andróide Maria defende Hynkel com todos os seus poderes de homem-máquina. Adenoid Hynkel, se bem se recordam, é a genial caricatura feita por Chaplin a Hitler no filme O Grande Ditador. A perversa Ayesha de She faz uma última aparição, Robur o conquistador aliou o Terror, a sua temerosa aeronave, aos serviços do governo francês no exílio após o blitzkrieg germano-tomaniano, e num combate final de enorme espectacularidade gráfica aparecem homens-foguete que suspeito inspirarem-se no Rocketeer de Dave Stewart. Sendo Moore uma enciclopédia ambulante e O'Neill o seu canal gráfico de eleição haverá certamente mais referências que me escapam, mas a que certamente Jess Nevins e os seus comparsas já estão a dar caça.

A história é de uma simplicidade extrema. Robur é capturado pelas forças de Hynkel e Janni Nemo, com o seu intrépido marido, ataca Berlim para salvar a sua filha, que faz parte da tripulação da nave de Robur. A acção é uma armadilha montada pela homem-máquina ao serviço de Hynkel que, para se aliar a Ayesha, tem de capturar Janni Nemo. O reusltado é um confronto entre Nemo e os envelhecidos homens misteriosos germânicos, que termina com a cidade de Berilm/Metropolis arrasada pelos aeronautas do Terror. Um argumento simples, e compreende-se. O objectivo de Moore é homenagear a tradição fantástica do cinema expressionista alemão, e fá-lo com a sua habitual mestria. Uma delícia para os fãs da série, e uma profunda homenagem aos filmes intemporais que saíram do extraordinário cadinho criativo germânico dos anos 20 e 30 do século XX.

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