quinta-feira, 6 de março de 2014

Guerra Futura 2104: Rapporti di Guerra; Squadra Fantasma: Minaccia Androide.


Stefano Vieti, Paolo di Clementi (2013). Universo Alfa #10: Guerra Futura 2104 - Rapporti di Guerra. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Ás vezes somos surpreendidos pelo que menos esperamos. Na minha busca por FC em fumetti os alvos óbvios, Nathan Never e Legs Weaver, têm-se revelado desapontadores. Ambas as séries usam a FC como mero adereço, fortemente datado e a servir como palco para, no caso de Never, histórias policiais de acção e em Legs Weaver... aquilo não se percebe bem se é pornografia softcore cómica com armas ou policiais desastrados. Não é animador. Tenho seguido Legs por inércia, e com Nathan Never bastou-me uma ou duas leituras para perceber que o meu tempo seria melhor gasto com outras leituras.

Mesmo assim, o universo ficcional de FC da Bonelli é consistente, com um mundo futuro hiper-urbano num planeta com mazelas de eventos apocalípticos. Nacionalidades não são abordadas, mas há traços das nações. A humanidade espalha-se pelo espaço, havendo estações orbitais independentes, alienígenas e mutantes. O mundo Agenzia Alfa é curiosamente abrangente e foi aproveitado para a série Guerra Futura.

Não estava à espera de muito quando peguei, por acaso neste Rapporti di guerra. Fui surpreendido com sólida ficção científica militarista, tirando partido das características do universo ficcional com linha narrativas bem elaboradas. Ao ler as aventuras deste episódio, Heinlein e Haldeman não andavam longe da minha mente. Heinlein pela óbvia cenografia da guerra no espaço narrada pelo ponto
de vista do soldado, Haldeman graças a uma visão que não glorifica o suposto heroísmo e se centra nos desastres e dilemas morais dos combatentes.

A premissa desta variante é a de uma guerra que opõs as estações orbitais à Terra. Legs Weaver e Nathan Never têm referenciado estes eventos mas as suas aventuras passam-se depois desta guerra. Nesta série quase não há referências a estes personagens e o tom é de completa FC militarista. Neste episódio, anos após a guerra, uma jornalista revisita três momentos, equilibrando a história oficial com as experiências dos soldados participantes.

O grafismo replica o esperado nestas ficções, fugindo ao estilo datado das séries da qual bifurcou com alguma inspiração nos adereços cinematográficos de filmes deste género. Só é pena que o fumetti não se distinga pelos grafismos individuais dos ilustradores, algo em que se assemelha muito ao manga. Não há o traço individualista que caracteriza a banda desenhada ou os comics, onde os estilos pessoais dos ilustradores são parte integrante da experiência gráfica. Tal como o manga, o fumetti tem o seu quê de estilo uniformizante, quase mecanicista na sua abordagem gráfica.


Stefano Vietti, Patrizia Mandanici (2008). Universo Alfa #02: La Squadra Fantasma - Minaccia Androide. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Pensava eu que me tinha visto livre da inefável agente Legs, mas no mundo Universo Alfa estes personagens regressam periodicamente para nos assombrar. Felizmente nesta variante o tom jocoso é abandonado a favor de maior seriedade no argumento. O tom é de aventura violenta, com uma equipe da agência a salvar um pai e filha das garras de uma empresa cibernética defendida por um exército de andróides. No processo, cruzam-se com uma equipe de robots de combate ao serviço de uma inteligência artifical correntemente residente num cyborg-clone cujas intenções nunca são explicadas. Claro, nada trava estes agentes. Como à parte curioso temos no início do livro uma despedida entre Legs e May, separação que indicia mais do que o fim de uma amizade. Desde que travei conhecimento com estas personagens que fiquei bem surpreendido pelas óbvias conotações progressistas da proximidade entre estas duas personagens, e intrigado por os argumentistas, nalguns casos criadores de perfeitos desastres narrativos, não cederem à tentação de resvalar para pornografia softcore.

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