sexta-feira, 14 de março de 2014

Leituras


Cory Doctorow: Cold Equations and Moral Hazard: Uma visão particularmente brilhante sobre como o estreitar de horizontes absolutos facilmente nos conduz a raciocínios falaciosos e aceitar o inaceitável. Doctorow analisa duas obras de FC clássica que enviesam a apresentação das suas premissas de base para que o leitor considere atrocidades como algo de moralmente aceitável, e extrapola esta análise para a cultura audiovisual contemporânea, com o óbvio destaque ao 24, a série que nos ensinou que é justo que os bons torturem os maus em nome da segurança. Eu aqui juntaria o Law and Order, essa coisa horrendamente tendenciosa onde atravessar o olhar moralmente superior dos agentes da lei implica imediatamente culpa de qualquer coisa. Doctorow não esmorece e dá o salto lógico para as discussões políticas, económicas e morais que se vivem no momento contemporâneo. A observação que faz é muito pertinente. Quantas vezes os debates públicos não são condicionados por perspectivas deliberadamente enviesadas que nos levem a concluir que algo que intuímos como mau tem afinal benefícios aceitáveis? No nosso caso português basta olhar para a retórica da crise, austeridade e endividamento para perceber como dados enviesados condicionam percepções. Ou, como Doctorow coloca, "that stories about how we can’t afford to hew to our values in time of crisis are a handy addition to every authoritarian’s playbook, a fine friend of plutocrats, and they reek of self-serving bullshit every time they’re deployed".

Uncube Magazine #19 - Space: A Uncube é uma revista online de arquitectura que, para a sua décima nona edição, aborda a exploração espacial como tema. O resultado é uma edição visualmente deslumbrante, que toca em arquitecturas ficcionais, projectos bleeding edge, infraestrutura clássica dos anos de ouro da ciência dos foguetões, memórias retro-futuristas e uma certa nostalgia pelo brutalismo tecnológico capaz de colocar o homem em órbita. Particulamente interessantes são a apresentação sobre Galina Barashova, arquitecta envolvida no design de três gerações de naves espaciais soviéticas; a visita à visão de Gerard K. O'Neill (e é sempre bom recordar que foi deste cientista que partiu o conceito de cilindro orbital gigante habitável); e o retro-futurismo ingénuo feito de memórias de uma infância vivida nos primeiros tempos da exploração espacial. Recomenda-se vivamente a leitura, nem que seja para encantar o olho com belas visões arquitectónicas onde exploração espacial e futurismo colidem com elegância.

League of Extraordinary Gentlemen: Nemo: Roses of Berlin annotations: Foi rápido. Roses of Berlin ainda mal saiu e Jess Nevins, conluiado com os seus colaboradores, já começou as anotações onde disseca as referências textuais e visuais que Alan Moore e Kevin O'Neill deixam nos seus livros. O tom deste mais recente álbum da Liga dos Cavalheiros Extraordinários é de aventura sem grandes complexidade, o que poupa trabalho ao intrépido caçador de referências. Esta página é companhia obrigatória para releituras de Roses of Berlin, para se melhor apreciar a extensão da vénia de Moore às ficções pulp e fantásticas dos séculos XIX e XX.


Movie Magic at The Rank Organisation: Pinewood Studios' mattes, miniatures & trick photography: Caveat lector: a seguir a este link vem um dilúvio de imagens. Todas surpreendentes. Embrenhados como hoje estamos nas artimanhas mágicas dos efeitos especiais digitais esquecemos a longa tradição de mestria artística tradicional colocada na criação de efeitos especiais para cinema e televisão. São imagens insuspeitas, que enganam o olho através do celulóide, feitas com uma sofisticação técnica que hoje, do alto da nossa torre de marfim computacional, pensamos ser inexistente. Delumbrem-se com estes efeitos recolhidos no Matte Shot, um blog dedicado à recordação das técnicas clássicas de pintura mate de cenários para audiovisual.

A Factory in Every Foyer: Ao ler este artigo primeiro sorri e depois ri às gargalhadas. Pois, precisamente, pensei. A malta do 3D printing sonha e apregoa esta tecnologia como uma revolucionária mudança de paradigma que transformará cada um de nós em designer, engenheiro e construtor de objectos. A verdade é mais sóbria. Não só a tecnologia está ainda incipiente e cara, como o desafio técnico de modelar em 3D e preparar um objecto virtual para impressão não é tarefa simples. Está muito longe da promessa de clicar num botão e ver-se o materializar, como que por magia, de um objecto a partir de uma núvem de fumo e plástico derretido. Devo dizer que concordo com a conclusão desta jornalista. O 3D printing tem enorme potencial, mas a sua adopção como tecnologia de consumo massificado é uma visão errada. Terá lugar nos ateliers e escritórios de artisas, makers, prototipistas, designers, artesãos digitais e curiosos que gostam de usar o tempo livre para recriar o real com malhas poligonais (é aqui que me incluo). Até porque, se olharmos para as visões de FC de replicadores cheios de nanomáquinas que recriam e fornecem qualquer objecto à vontade do seu dono, todas têm uma constante: quem as utiliza não tem de mexer uma palha, basta clicar nos botões ou ordenar à máquina que faça o que pede. Algo que é tão verdade para os replicadores de Star Trek, as nanomáquinas construtoras de Haldeman em Forever Peace ou os nano-replicadores empacotados como utensílio de cozinha de Transmetropolitan do Warren Ellis, isto apenas para citar três exemplos de visões de cornucópias tecnológicas. Também é interessante a intuição sobre o utilitarismo industrial expresso no artigo.

Learning first, technology second: Steve Wheeler está aqui a falar das chatices de ensinar com LCMS (learning content management systems, para os não docentes de entre quem se der ao trabalho de ler isto), mas a afirmação é mais abrangente no seu conceito. Apesar de ser importante haver momentos introdutórios em que a aprendizagem se foque na manipulação de sistemas tecnológicos, o fundamental é que estas bases sirvam depois para que os alunos as coloquem ao serviço dos seus processos de aprendizagem e desenvolvimento pessoal. O mero domínio de uma ferramenta digital não é o suficiente.

Vygotsky, Piaget and YouTube: Uma interessante reflexão de Wheeler sobre a ZDP e a explosão dos media digitais. A zona de desenolvimento proximal de Vygotsky é, pondo a coisa em modo simplificado, um reconhecimento que uma das mais potentes formas que temos de aprender é observar e imitar. Quantos de nós não recorreram já a tutoriais online, vídeos e outros recursos digitais para perceber melhor algo que queiramos fazer, aprender técnicas específicas de trabalho, ou procurar inspiração e novas ideias que nos levam a aprofundar mais algo que tenhamos aprendido? Ao fazê-lo estamos a recorrer ao poder das aprendizagens socialmente contextualizadas. Já a resposta possível à questão que Wheeler coloca no final é ambas. Olhar apenas para o poder das aprendizagens sociais mediadas pela tecnologia seria tão redutor como encarar uma abstracta busca quase auto-didacta pelo conhecimento. Até porque são vertentes que se complementam. As fronteiras são difusas e interpenetram-se, e nestas coisas do ser humano e da forma como pensa e aprende um único modelo não chega para descrever as múltiplas facetas que nos caracterizam.

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