quinta-feira, 20 de março de 2014

Comics: Malinky Robot; Yesterday's Tomorrows


Sonny Liew (2011). Malinky Robot. Berkeley: Image Comics.

Há neste livro uma curiosa mistura de sensibilidades. Temos por um lado o estilismo bonito e atraente das personagens infantilizadas como desenhos animados. Por outro, o futurismo alastrante de sabor asiático das megalópoles que misturam o hipermodernismo dos arranha-céus de vidro brilhante com o fervilhar humano ao nível das ruas. Isto é FC, mas de forma difusa, uma visão poética que digere influências da FC tradicional e das visões de futuro do manga e anime.

Malinky Robot vive de um certo experimentalismo gráfico, que não hesita em reformular as estrutruas gráficas de diversos géneros de banda desenhada, e de uma profunda inocência narrativa nas aventuras simples dos dois amigos e um robot. Faz recordar Charlie Brown, se as suas inocentes aventuras tivessem sido escritas por Charles Schultz e ilustradas por um artista que misture os talentos de Myiazaky e Otsomo. De facto, uma colisão simpática entre os Peanuts, Akira e Chihiro é o que melhor me ocorre para descrever este delicioso livro.


Rian Hughes (2011). Yesterday's Tomorrows: Collected Comics. Berkeley: Image Comics.

O estilo retro-futurista do ilustrador Rian Hughes está em destaque neste livro que colige histórias que ilustrou. Visualmente é um mimo, trazendo ao leitor uma mescla de estilo googie, as cores suaves mas vibrantes em voga nos anos 50, design retro, e toda a parafernália visual de uma tecnologia de ferro curvado e a espiralar para os céus. Histórias como Science Service, Dan Dare e Realy & Truly evidenciam o concretizar no papel destas visões de futuros que nunca aconteceram. Dan Dare, com argumento de Grant Morrison, é a mais brilhante das histórias coligidas. Visualmente está um espanto, com Hughes a actualizar com um toque certeiro de decadência as visões ingénuas de Frank Hampson, criador desta personagem clássica da BD inglesa. Sendo um argumento de Morrison, é de esperar coisa interessante, e não desilude. A inocência luzidia do Dan Dare original leva com uma dose forte de cinismo inspirado no neoliberalismo violento dos anos de Thatcher numa história sobre a amargura da velhice, as ilusões da utopia e o gosto pelo poder a qualquer custo. De Morrison ainda lemos Realy & Truly, talvez escrito sob influência de psicotrópicos com uma ilustração que não lhe fica atrás. Science Service leva-nos a um hipotético futuro, onde os sonhos retro-futuristas moldaram uma realidade que por debaixo do utopismo luzidio esconde a habitual corrupção humana. O resto, apesar de visualmente estimulante, não se distingue da larga massa de normalidade impressa para consumo.

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