terça-feira, 18 de março de 2014

Asteroide Argo: Il Destino Dell'Impero; Le Cronache di Marte: Il Gladiatore.



Bepi Vigna, Elena Pianta (2012). Asteroide Argo #05: Il Destino Dell'Impero. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Sim. Existe. Lentamente, ao sabor da boa vontade de scanners e uploaders e já mais capaz de atravessar uma barreira linguística de si não muito complexa, vou descobrindo a resposta à minha pergunta. Sim, há uma vertente de FC no fumetti que tem vindo a ser bastante bem explorado. Se nas séries Legs Weaver e Nathan Never a FC existe como elemento decorativo, daí também partiu a variante Universo Alfa, conjunto de publicações geradas a partir dos elementos fulcrais do universo de Nathan Never mas com maior liberdade para explorar variantes de FC. Guerra Futura 2104 explora - e pelo que já vi, muito bem, a FC militarista; Agenzia Alfa expande o ambiente de policial no espaço e Dipartimento 51 leva-nos ao passado do universo ficcional, o nosso passado e presente, para histórias que lidam com o oculto e ovnilogia.

A série Asteroide Argo segue noutra direcção. Por razões que ainda desconheço porque, em Fumetti, as histórias de origen depressa ficam distantes, um grupo de agentes Alfa está à deriva por uma galáxia alenígena. Cruzam-se com um império estelar povoado pelas mais estranhas espécies extraterrestres e neste episódio vêem-se envolvidos em intrigas para controlar a sucessão do líder do império.

Ser interessante não obriga a ser bom. Périplos pelas galáxias é do que mais há por aí, grupos de aventureiros à deriva cruzando-se com civilizações estranhas é uma velhíssima estrutura narrativa da FC. Nada de novo por aqui, excepto este sabor italiano, e ainda agrava pelo pendor dos argumentistas e ilustradores de usarem e abusarem dos estereótipos dos alienígenas humanóides. Para além das habituais cabeças de cérebro à mostra ou humanóides disformes ainda se lembraram de inventar uma espécie cujo rosto tem três narizes triangulares similares aos de porcos e um príncipe em busca de trono que se assemelha a um esqueleto com uma coleira de bicos ao estilo punk no lugar do cabelo. Não, não estou a inventar, sim, estou a descrever alguns dos mais óbvios voos de mau gosto desta série. Como sinal positivo, há de destacar aquelas visões arquitectónicas feérico-orientalistas cheias de cúpulas e espirais para encher o olho.


Bepi Vigna, Germano Bonazzi (2013). Universo Alfa #12: Le Cronache di Marte: Il Gladiatore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Um curioso aprofundar do futuro ficcional de Universo Alfa. O foco está em Marte, onde duzentos anos após as primeiras tentativas de colonização humana o planeta foi terraformado, e grandes cidades pontuam a desolada paisagem marciana. As agruras da vida em Marte obrigaram os primeiros colonos a desenvolver mutações genéticas intencionais, para gerar seres melhor adaptados às duras condições. Duzentos anos depois a sociedade marciana divide-se entre mutantes superiores, mutantes e descendentes de terrestres. O poder está nas mãos dos mutantes superiores, que instauraram uma ditadura fascista assente na ideia da sua superioridade biológica e social. Os humanos vivem aprisionados em campos de concentração, libertos apenas para trabalhar como mão de obra escrava e manter próspera a economia marciana. O périplo de descoberta é feito através das aventuras de um gladiador humano das arenas de combate marciano, filho adoptivo de um casal de mutantes que não partilha da ideologia oficial.

O subtexto é pouco subtil. O aproveitar da estrutura clássica da distopia de futuro totalitário segue as linhas habituais, mas sendo uma obra de fumetti traz-nos o carácter italiano. Para além da crítica às ideologias e xenofobia totalitarista, vemos aqui uma referência à história recente de Itália. A clique que detém o poder é representada por um mutante supremo, mas o curioso é que todos os mutantes superiores são retratados como clones mal disfarçados de Mussolini, desde o olhar duro no rosto balofo à pomposidade oca da personalidade.

Este é outro dos elementos que forma o universo Alfa. Temos a Terra futura, o sistema solar dividido entre o berço da humanidade, as estações orbitais e o planeta Marte, em guerra entre si com algumas colónias nos restantes planetas, e a Agência Alfa a funcionar como fio condutor da narrativa. Esta versão ampliada do que Nathan Never e Legs Weaver iniciaram tem aspectos intrigantes.

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