sábado, 8 de fevereiro de 2014

Mudam-se os tempos, ficam as vontades.


Há uma página no facebook que se dedica a desmontar o parolismo do casal presidencial que temos de suportar. Porque há por ai quem não lhes perdoe que, mais do que serem os testas de ferro visíveis da oligarquia que se dedica a saquear este país, aparentam ser criaturas de cultura atroz e provincianismo hiperbólico. Note-se que são meros testas de ferro, faces públicas de um poder invisível mas pouco subtil que tem sabido manter este país em retrocessos e atrasos.

Entre as muitas fotos dedicadas ao gosto duvidoso e vacuidade destas figuras simbólicas dei com uma que me fez lembrar qualquer coisa.


Sim, era um miúdo atento nas aulas de história e lembro-me de ler sobre o Movimento Nacional Feminino, nos gloriosos tempos do estado novo. Gloriosos para os que de momento alcançaram as rédeas do poder contemporâneo, herdeiros directos e ideológicos do fascismo obscurantista que manteve Portugal nas trevas durante quase setenta anos. Que fazia do exaltar do provincianismo uma das suas pedras de toque. É-me difícil não associar a imagem da esposa do presidente silva reunida com... a legenda não explicava, com esta visão de Cecílica Supico Pinto, líder do movimento que se dedicava a aliviar a solidão e a saudade dos soldados obrigados a combater uma guerra inútil nas colónias com toques de portugalidade. Mesmo sem abusar da ironia anti-poderes instituídos, o ar estadonovista que se levanta da foto contemporânea é tão pronunciado que me leva a pensar que mudam-se os tempos, mas ficam as vontades.


Já que estamos numa de zurzir na Presidência, não resisto a pensar em Boucq. Zurzo com ironia porque enfim, assassiná-los seria considerado crime apesar de ser um bom serviço prestado a todos nós. Estamos a ficar demasiado civilizados para combater com eficácia os engravatados de falinhas mansas sem escrúpulos que afirmam salvar-nos enquanto nos espoliam. Na série Face de Lua, escrita por Jodorowsky, Boucq representa com o seu traço visceral um casal presidencial de assinalável parolice, decalque perfeito das memórias da cortina de ferro. O modelo inspirador foi Enver Hoxha, ditador comunista da isolada Albânia, e dotado de um superlativo parolismo que deixaria o nosso Silva a esvaír-se em paroxismos orgiásticos. Se trocar esta iconografia pela de dona maria e o seu cavaco... certo, perceberam.

Nota final: não tenho nada contra as províncias nem os seus habitantes. O provincianismo é um estado de alma, não uma localização geográfica.

4 comentários:

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

«Assassiná-los seria considerado crime apesar de ser um bom serviço prestado a todos nós».

Também desprezo Aníbal Cavaco Silva, e muito escrevi e publiquei contra ele nos últimos 20 anos. Porém, nunca apelei, directa ou indirectamente, ao (nem fantasiei com o) seu homicídio. Crimes contra chefes de Estado de países (mais ou menos) democráticos causam-me repulsa. O que é normal em mim dado que não sou republicano.

artur coelho disse...

é compreensível. como monárquico deve ter traumas generalizado com guilhotinas.

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Sim, em 1789 fiquei muito «traumatizado». Escapei por pouco... ;-)

artur coelho disse...

rotfl! boa, essa, boa1 :)