sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Leituras

Startup myths and obsessions: Não é só por cá que políticos ao serviço de interesses financeiros querem submeter a educação e ciência a visões neoliberais que privilegiam o lucro de uns em detrimento do bem comum. John Naughton analisa a situação britânica, mas a ideia também se aplica ao nosso caso específico, debaixo da tirania do sapato de luxo dos austeritários (a versão século XXI das botas cardadas dos invasores). Por cá também se discute, de forma radicalizada, estas ideias da investigação científica como algo que deve estar primariamente ao serviço das empresas e da economia. Se bem que por cá o argumento é mais uma desculpa para os do costume cortarem naquilo que não os beneficia directamente. Num país austeritário é claro e cristalino que no equilíbrio dos orçamentos públicos não há dinheiro para saúde, educação, ciência, cultura e outros serviços essenciais à cidadania. O que interessa é manter parcerias público-privadas, assegurar semi-monopólios alicerçados na promiscuidade entre o sector privado e cargos públicos, favorecer negócios de grupos estratégicos nas amizades e utilizar os dinheiros públicos para tapar os buracos financeiros privados. Sublinhe-se que esta rapacidade oligárquica não é exclusiva das nossas paragens.

Mas estou a desviar-me. Podia ir pelos argumentos de um primeiro ministro que em pleno parlamento responde a questões sobre o financiamento da investigação com algo nas linhas de o estado não tem que sustentar investigadores, eles têm é que ir trabalhar para as empresas (ninguém reparou nesta, estava tudo mais ocupado a estar chocado com declarações similares do boçal ministro da economia) ou nas mais recentes declarações de atroz falsidade sobre o pretenso insucesso e falta de qualidade do investimento na investigação. Se bem que nisto eu, professor calejado, sorrio perante a indignação dos académicos. Já estou demasiado ferido por uma guerra pouco subtil travada contra a minha classe profissional e o sistema público de ensino, feita à medida de interesses privados e baseada em constantes ataques à imagem pública, empolamento de situações pouco frequentes, acusações de incompetência pedagógica aliadas ao constante apontar de supostas deficiências nos resultados do ensino-aprendizagem, que mesmo que contrariados pela evolução portuguesa em indicadores internacionais são mantidos como argumento para uma suposta necessidade de renovar o sistema educativo para o tornar... podia dizer aqui as falsas verdades com que ocultam o real objectivo, mas não vou perder tempo. A ideia é tornar o sistema privado à conta do dinheiro dos impostos, assegurando mais um fluxo financeiro do bem comum para os bolsos dos amigos e comparsas dos eleitos. Faltava a este desgoverno, imbuído da missão messiânica de endireitar este país (e sim, este "endireitar" tem duplo sentido), meter na ordem essa bandalha de cientistas que obrigam ao dispêndio de dinheiros que estariam muito melhor nas contas bancárias da oligarquia. O principal argumento que utilizam? O da responsabilidade financeira no apostar de investigação com rentabilidade económica a curto prazo. É um belíssimo argumento. Se tivesse sido sempre este o princípio orientador da investigação científica ainda estaríamos a viver nas cavernas, mas teríamos fantásticos utensílios de pedra investigados até ao máximo da eficácia.

É que a história mostra o contrário, que mesmo com as excepções de alguns laboratórios ligados a corporações (estou a pensar nos Bell Labs, por exemplo, de onde saiu tanta ideia que hoje caracteriza o mundo digital) a investigação fundamental que permitiu as inovações e a cada vez mais rápida evolução tecnológica se fez com apoio estatal. Porque, e desculpem-me lá se estiver a pensar mal, um laboratório ligado a uma empresa está primordialmente interessado em refinar o que já fabrica ou encontrar novos produtos dentro de uma mesma linha utilitária que permita a continuidade rentável da empresa. O que esta visão de Naughton sobre um livro muito curioso mostra é que os que tanto reclamam a primazia do privado sobre o investimento público enriqueceram à custa da inovação desenvolvida com dinheiros públicos. Das duas uma. Ou estão a dar tiros nos pés, ou perceberam que o investimento contínuo em investigação poderá trazer inovações que façam perigar as suas fortunas que se baseiam no constante revender de supostas grandes inovações que não passam de iterações sucessivas de algumas tecnologias. Estarão os empreendedores que apregoam o fim do peso estatal na investigação nos estão a atirar areia para os olhos? Afinal a mão invisível do mercado não é o que nos trouxe tantas e tão maravilhosas invenções? "These firms have benefited immensely from government funded research. Indeed, in my book I show how many firms in Silicon Valley have benefitted directly from early-stage funding by government, as well as the ability to build their products on top of government funded technologies. Every technology that makes the iPhone smart was government-funded (internet, GPS, touch-screen display, SIRI). "

A Conversation with Kevin Kelly [2.3.14]: Uma conversa com este guru da era digital promete mais do que realmente dá. Kelly tem fama de futurista mas é de facto um pregador hiperliberal que substitui a rapacidade financeira pelo positivismo tecnológico. Mas não deixa de ter ideias interessantes. O intenso mas subtil ritmo de transformação social que só é aparente décadas depois ("We're just at the beginning of the beginning of all these kind of changes. There's a sense that all the big things have happened, but relatively speaking, nothing big has happened yet. In 20 years from now we'll look back and say, "Well, nothing really happened in the last 20 years.") (e há que perguntar qual é o fétiche destes futuristas tecnológicos com o "20 anos", a inovação é sempre a 20 anos....); a complexidade da cultura popular ("things becoming more complicated and requiring more attention"); a necessidade da prática contínua ao invés da suposta osmose de aprendizagens trazida pelo digital ("this is not going to happen by osmosis; it will take training; it will take teaching; it will take education. It will take a literacy, a techno-literacy, to learn how this world works—to learn that these technologies have biteback, that they have feedback, that they have issues, restrictions, and there are costs."). O que sobressai é uma visão optimista que reconhece novos perigos e problemáticas trazidos pelo alastrar da tecnologia mas mantém o espírito humano firmemente aos comandos. Nisto, espero francamente que tenha razão e que não nos tornemos drones hipervigiados ao serviço de corporações feudais, amarrados e embevecidos pelos nossos maravilhosos dispositivos digitais.

Groundhog Day Succeeds by Breaking the Rules of Every Genre: Um aceno de agradecimento ao Viagem a Andrómeda, porque se o João Campos não tivesse destacado este artigo nas suas leituras teria perdido esta excelente análise de um filme excepcional. Groundhog Day é de facto um daqueles filmes que quebra todas as regras e funciona por isso. Destaco, do artigo, a observação que se a repetitividade é algo a evitar no contar de histórias é difícil ter um filme mais repetitivo do que este em que um dia se repete continuamente; e aquilo que todos sentimos, que não é a aparente redenção o factor que determina o fim do suplício da personagem interpretada pelo sempre brilhante Bill Murray. Nunca percebemos, não há razão aparente, e possivelmente a aleatoriedade do sentido da vida é uma das mensagens do filme.

Earth 2050 and beyond: enhanced immortal humans head for the stars: Futurismo positivista à escala cósmica. Quando um colunista informado se atreve a especular, saem coisas destas. Isto não é um sonho molhado, é um orgasmo de especulação futurista. Consegue tocar em todas as utopias tecno-científicas. E se o nosso futuro for o de semi-imortais com nanomáquinas medicinais a correr pelo corpo enquanto levamos a luz da nossa civilização aos recantos mais recônditos da galáxia, parceiros principais de uma grandiosa federação que une terrestres a alienígenas e teve o seu humilde começo nas areias marcianas... pronto, é deste tipo de especulações que as space operas são feitas.

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