quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Revista Trasgo


Rodrigo Van Kempen (2013). Trasgo Ficção Científica e Fantasia #01. 

Esta nova revista digital brasileira de FC e Fantasia é uma excelente surpresa. A qualidade narrativa dos contos coligidos é muito elevada, com destaque para a bem construída distopia pós-apocalíptica de Hális Alves que abre a revista, bem como para a intrigante inversão de premissas do fantástico medievalista de Melissa de Sá que a encerra. A capa do ilustrador Filipe Pagliuso captura bem o espírito da fantasia mágica, e no interior uma galeria de trabalhos mostra-nos mais do bem conseguido trabalho deste ilustrador. Para além de contos a revista ainda nos oferece entrevistas com os autores, onde podemos ficar a saber um pouco mais sobre os seus processos criativos, influências e restantes publicações. Uma boa surpresa e uma excelente leitura. E surpreendente, para um leigo como eu na literatura fantástica que se cria do lado de lá do lago atlântico. Podem ficar a saber mais sobre o projecto e ler a revista em formatos digitais no site da Revista Trasgo.

Ventania: num Brasil pós-apocalíptico, grupos de sobreviventes congregam-se junto de uma futurista e gigantesca torre eólica que, noutros tempos mais prósperos, ancorou uma sólida comunidade urbana. Dispondo de energia e de grandes quantidades de tecnologia, os habitantes transformam-se numa daquelas comunidades auto-sustentadas típicas de alguma FC mais utópica e tecnocrática (tipo de visão utopista que o fortemente individualista J.G. Ballard adorava arrasar, mostrando que as comunidades esclarecidas onde todos trabalham unidos por um ideal comum são implacáveis para quem pense de forma diferente). Mas a ameaça exterior de hordes semi-selvagens de cancerígenos mutantes radioactivos e cyborgs que fundiram a carne com as suas máquinas vai arrasar esta comunidade onde a luz da civilização ainda brilha. Um conto muito interessante, cheio de acção imparável e que vai revelando passo a passo um mundo ficcional mais vasto do que as suas páginas. Reflecte o estilismo de Mad Max e da restante cinematografia pós-apocalíptica de série B , aqueles atrozes mas divertidos filmes de adereços escandalosos e argumentos minimalistas que se ficam por pouco saudáveis doses de pancadaria e tiroteio entre gangs de motards em paisagens desérticas. Um belíssimo conto de Hális Alves.

Azul: pois, eu também acho que há algo de tenebroso e arrepiante nos Blue Man Group e não me refiro apenas às atrocidades musicais que cometem. Este conto de horror de Karen Alves tem uma estrutura clássica baseada na acentuação progressiva do terror e numa colisão entre os tais homenzinhos azuis e o enredo-tipo de maldição a ser passada de pessoa em pessoa. Ao regressar de uma festa uma jovem tem um encontro com um homem de tez azulada que a contamina com uma praga bizarra. Ela, uma Gregor Samsa dos trópicos, vai-se transformando não em barata mas numa criatura de azuis mas não consegue passar a maldição para outras incautas vítimas e acaba por se suicidar.

Náufrago: quando um ferry que atravessa a Baía de Todos os Santos se vê engolido por uma anomalia no espaço-tempo, um historiador especializado nos primeiros anos da colonização do Brasil vê-se aprisionado num passado que tão bem conhece ao salvar uma rapariga da morte nas águas revoltas. O conto de Marcelo Porto mete a meio uma caravela portuguesa com marinheiros de dedos sensíveis no gatilho das bombardas, acção pouco compreensível mas que permite o ponto de fuga da história de aventura num ferry à deriva  no tempo para a queda ao mar da rapariga cuja salvação pelo historiador implica ficarem condenados a estar encalhados no passado.

Gente é Tão Bom: conto bruto e de linguagem sem papas na língua de Claudia Dugim. Numa cidade costeira uma funcionária muito mal humorado de um aviário atrasa-se para chegar ao emprego... e ainda bem, porque um acidente nos seus laboratórios liberta para a atmosfera hormonas capazes que metamorfoseiam humanos em aves gigantes. Mas tudo acaba bem. A contaminação biológica é circunscrita e o mercado ganha um novo produto de aviário.

A Torre e o Dragão: o conto de Melissa de Sá aparenta ser uma história de príncipes que salvam princesas aprisionadas por dragões em castelos de fantasia, mas não o é. O príncipe não é bem um príncipe. Não nasceu em berço de ouro nem pertence a qualquer aristocracia. É um sábio rapaz do povo, detentor de uma vontade imparável de conhecer o vasto mundo e levado por um mago também aparentemente maligno às mãos da princesa. Princesa que também não o é, só está consciente de que de quando em vez aparecem príncipes para a resgatar do castelo, mas que acabam invariavelmente carbonizados pelo dragão. Dragão este que nunca se vê, nem se vislumbra, nem sequer quando o rapaz do povo ascende ao castelo e se apaixona pela princesa. Ao longo da estrutura narrativa deste conto que inverte de forma muito interessante as premissas da fantasia a autora vai-nos fazendo perceber quem realmente encerra dentro de si o dragão que carboniza pretendentes.

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