quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Perry Rhodan (16-19)


Kurt Mahr (1976). Perry Rhodan #16: Ghosts of Gol. Nova Iorque: Ace Books.

Rhodan e os seus intrépidos seguidores prosseguem no desafio impossível de resolver os enigmas colocados pelos obscuros detentores do segredo da imortalidade no labiríntico périplo determinado como teste à coragem e inteligência dos que ousam partir em busca do conhecimento. Desta vez o foco do enigma é um planeta inóspito do sistema Vega, cuja atmosfera gelada oculta uma superfície de metano viscoso e uma irritante forma de vida baseada em energia com um pendor para sugar as baterias atómicas e se delicia como um gourmet a provar raras delícias com o poder dos raios desintegradores. O eternamente resiliente Rhodan enfrenta a atmosfera densa, a superfície mutável e os energéticos espectros para prosseguir no desvendar dos desafios milenares colocados por uma incompreensível entidade de sapiência infinita. Esta, há milénios atrás, criou um longo e elaborado enigma que só um grupo determinado, tecnologicamente avançado, corajoso e com poderes telepáticos e telequinéticos consegue resolver. Parece mesmo feito à medida para o intrépido Rhodan, os aliados arcónidas e os mutantes terrestres que sulcam a galáxia na nave Stardust II.

No interior de uma montanha de geometria perfeita, após atravessar a paisagem mutável que solidifica e se dissolve ao sabor das tempestades e enfrentar o vale dos fantasmas onde se congregam multidões de seres espectrais de energia pura Rhodan desvenda mais um pouco do grandioso enigma. Julgado digno de prosseguir, é teleportado junto com os companheiros e a portentosa nave para um sector desconhecido do espaço, talvez para lá da galáxia.

Kurt Mahr delicia-se a construir visões surreais de FC clássica onde a tecnologia futurista se dissolve em paisagens de abstracção onírica, rodeados de seres etéreos. A narrativa prossegue de acordo com os rigorosos planos editoriais da série, sendo mais um degrau na escalada de aventuras de Rhodan, mas nota-se que a mão deste autor se entretém a criar mundos de fantasia dentro do espartilho criativo imposto pelos editores. Note-se que desde o seu início que Perry Rhodan foi assumido como série comercial, firmemente estruturada pelos seus criadores que se iam revezando na escrita dos episódios sequenciais.


Kurt Mahr (1976). Perry Rhodan #17: The Planet of the Dying Sun. Nova Iorque: ACE Books.

Está a tornar-se claro que pelo menos na sua origem esta série não se distingue pela qualidade literária. Não é algo que surpreenda numa série comercial pensada para publicação regular, ritmos que não se coadunam com processos de criação literários mais cuidados. Talvez seja da tradução, mas mesmo nos momentos mais agitados a prosa não corresponde às ideias. E nos piores momentos a linguagem narrativa é um lodaçal apenas tornado suportável pela curiosidade em perceber a continuidade da série ou pelas ideias intrigantes que explana. É o caso deste Planet of the Dying Sun. As ideias interessantes estão lá. Rhodan prossegue na busca do segredo da imrtalidade e depara com um planeta desértico na órbita de um sol decadente. Este é habitado por duas espécies, uma de ratos-castores semi-inteligentes com capacidades telequinéticas que deixa de cabelos em pé os aventureiros da nave Stardust II com tanta avaria inexplicável, e os defensores das pistas da busca pelo segredo, robots milenares com cérebro orgânico. A história é, essencialmente, o corajoso Rhodan a enfrentar os mistérios das avarias misteriosas e os ataques dos robots, enquanto desvenda mais uma pista da busca pela localização dos imortais. Tem o seu quê de gremlins colidido com forbidden planet com estes ingredientes que misturam animais de ar simpático com gosto por travessuras de diabretes e máquinas milenares que defendem um segredo oculto. E a ideia dos alienígenas parcialmente inteligentes é bem engraçada. Durante o dia inteligência primitiva com curiosidade e telecinese, à noite reverte para estado animalesco. Daria uma interessante história de desenvolvimento civilizacional, talvez similar ao que o Vernor Vinge fez com uma sociedade de aranhiços num planeta gelado que apenas é capaz de se desenvolver durante os meses mais quentes até que a intervenção humana os dota de tecnologia capaz de enfrentar os invernos profundos em A Deepness Upon The Sky.

Li algures que a prosa de Perry Rhodan tem um carácter de precisão germânica, mais empenhada em quantificar com precisão do que em aprofundar os mundos ficcionais. E isso nota-se particularmente neste livro. Com os nossos heróis em expedição por um planeta desértico, um Arrakis avant la lettre, com duas sociedades alienígenas excelentes para aprofundar, e o autor perde-se na descrição precisa da quantidade de tripulantes que embarca no número definido de veículos que percorre uma determinada distância em quilómetros. Precisão nos detalhes, mas uma criação de espaço ficcional muito difusa.


Clark Darlton (1972). Perry Rhodan #18: The Rebels of Tuglan. Nova Iorque: ACE Books.

Darlton começa o livro com uma anormalidade. Mostra-nos uma anómala criatura rato-castor do episódio anterior que, ao contrário dos restantes da sua espécie, não tem inteligência episódica. Curioso telequinético durante o dia, quando cai a noite a sua inteligência não se desvanece como aos restantes elementos da espécie. Uma nave como a Stardust e os estranhos seres que nela se atarefam representam uma tentação demasiado grande para a curiosidade deste rato-castor que se acomoda nos espaços imensos do gigante do espaço e assim se torna o primeiro da sua espécie a ir às estrelas enquanto arrelia a tripulação de Rhodan com as suas misteriosas tropelias. Pergunto-me se esta criatura será o famoso Gucky, espécie de rato com fato de astronauta que agracia muitas capas da série que fazem questão de salientar mit Gucky. Por outro lado, sendo o meu alemão algo de inexistente, é bem provável que estas capas anunciem alguma promoção especial, talvez um chocolatito que viesse a acompanhar a revista Perry Rhodan da semana.

Talvez. Mas todo o grande personagem tem a sua criatura de estimação. Tintin não é concebível sem o seu Milou, Han Solo sem Chewbacca não seria o mesmo, Batman tem os seus Robins, Flash Gordon sem.. ora, Dale Arden ou Zarkov? Agora fiquei confuso. E será que Perry Rhodan adoptará o rato-castor inteligente? Lembrem-se, estamos a falar de literatura popular germânica. Onde outros escritores inventariam uma criatura de aspecto simpático, Darlton (e antes deste Mahr) resolvem o prolema justapondo as imagens mentais despertadas por ratos e castores. Mas spoilers, dears: afinal é, como uma pesquisa na wiki dos Rhodanianos revela. Mas parece que vai ter um papel bem mais vasto do que mero alienígena animalóide bonitinho. Até irá salvar a espécie. Avisei-vos, dears. Spoilers.

Quanto ao resto da história, é um desvio ao arco narrativo da busca da imortalidade com uma paragem forçada num sistema ainda sob domínio dos arcónidas que se encontra prestes a libertar-se do jugo imperial. Ou talvez não, uma vez que se trata de uma elaborada conspiração do corrente líder local do sistema planetário para consolidar o seu poder. Essencialmente este desvio é uma desculpa para nos ser mostrada a forma de governo colonial dos arcónidas, que se resume ao envio de um representante formal apoiado por robots bem armados e no deixar o governo dos sistemas planetários colonizados em modo de quase independência. É apropriado à raridade com que naves imperiais sulcam as vias estelares, com os sistemas de comunicação arcónida que possibilitam comunicar instantaneamente com qualquer ponto da galáxia a servir de cola ao império. Rhodan e a Stardust II chegam por acaso ao planeta e são obrigados a intervir após um atentado contra o centro de poder arcónida. Aqui se mostra o conveniente que é ter telepatas na tripulação. O ardiloso líder do planeta Tuglan, real autor da conspiração anti-arcónida mas que tenta ocultar o seu papel culpando o irmão, não por acaso a persolaidade favorita dos nativos e lealista ao império. Mas com telepatas a ler os mais ocultos pensamentos não há conspiração que resista. Este é um elemento destrutor de estruturas narrativas. Tal como hoje, em que a ubiquidade normalizada da comunicação por telemóvel retirou a camada dramática da chamada telefónica ou do enredo baseado na incomunicabilidade.

Este episódio é também a introdução de um novo personagem, o curioso misto de ajudante com animal de estimação que na versão original é chamado de Gucky e nesta tradução de Puck. Há uma razão para o apelido e esta é-nos explicada na tortuosa tradição narrativa da série, que perde imensos parágrafos com minúcias mas esquece muitas vezes a solidez do panorama global. Resumindo, a referência é àquela personagem endiabrada e travessa do Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare. Referência curiosa para uma criatura animalesca inteligente que se dedica a agrada aos humanos e gosta de festas debaixo do queixo.


Karl-Herbert Scheer (1972). Perry Rhodan #19: The Immortal Unknown. Nova Iorque: ACE Books.

Eis que com toque épico chega ao fim o primeiro ciclo dos arcos narrativos de Perry Rhodan. Após superar todos os desafios Rhodan e os intrépidos tripulantes da Stardust II chegam finalmente à presença da todo-poderosa entidade imortal para receber a justa recompensa. É um final que sublinha o bom, o mal e o estranho na série.

Há momentos incoerentes nesta narrativa final, como o desafio que mete Rhodan num duelo com um pistoleiro do oeste americano. Não faz sentido, ou antes faz, se entendido numa lógica de narrativa pulp que vai sondando outros mercados. A malta gostou de ver um comandante futurista em duelo com um seboso cowboy? Então siga e prossiga a série com novas aventuras de Rhodan no velho oeste. Ninguém gostou? Então continue-se o caminho que se segue.

No estranho tenho de apontar algo que tenho afirmado ao longo das minhas observações da leitura de Perry Rhodan: o carácter caudilhista do personagem, eleito entre os eleitos, com um toque de grandiloquência quase wagneriana que sobressai e muito neste final de arco. O futuro, e outras leituras, e muitas outras leituras que a série é comprida, dirá se estes traços de carácter continuarão a dominar a série ou se Rhodan se metamorfoseará em algo mais actual. Pessoalmente aposto a segunda hipótese, porque uma série não dura décadas a repetir sempre os mesmos ideários. É uma impossibilidade física, porque mesmo que mantenha a fidelidade do público geriátrico este escalão demográfico tem uma sustentável tendência de extinção a curto prazo. Estou por isso convicto que este sub-texto com possíveis origens no ideário fascista que dominou a mentalidade germânica até ao final da guerra se alterará.

Mesmo assim é incoerente. Se Rhodan é o eleito, único que a entidade determina ser digno de receber o dom da imortalidade, para desgraça e desespero dos arcónidas que se julgavam os primeiros receptáculos da dádiva, há na série todo um discurso de união democrática e igualdade de raças e espécies. A infalibilidade de Rhodan é sustentada pelo desenrolar das histórias, mas o herói não se sente convencido da suas certezas. Os que o rodeiam respeitam-lhe o carisma e o gosto pela aventura, mas são livres de o questionar embora nunca o coloquem em causa. O sonho afirmado é o de unir a Terra e fundar um novo império galáctico herdeiro de Arkon, mas aqui volta a incoerência ao afirmar sob a visão igualitária uma noção dos terrestres enquanto espécie superior, destinada a dominar a galáxia. Rhodan assemelha-se ao ditador esclarecido de Maquiavel, aquele que domina mas concede aos súbditos liberdade em troca do reconhecimento da sabedoria das suas decisões.

Quando se atreve a entrar no domínio da Space Opera pura a série brilha. A narrativa da chegada de Rhodan ao planeta escondido é um ponto alto do género. Após a épica passagem pelos campos de força que ocultam e protegem o planeta dos imortais somos mimados com descrições que são do melhor que a space opera pulp pode dar aos leitores. O mundo é plano, um imenso círculo protegido por um campo de forças esférico e atmosfera controlada. Como ainda não li Mission of Gravity de Hal Clement abstenho-me de fazer comparações com este conceito de planeta-bolacha. Na superfície Rhodan encontra uma colecção díspare representativa de artefactos e espécies de animais e plantas de um pouco de toda a galáxia, dispersos por vastas floresas e oceanos. No centro, uma cidade de fazer inveja a Coruscant ou Trantor, mas estranhamente deserta. Rhodan busca um ser imortal, mas o que encontra é algo diferente. Toda uma espécie cujo desenvolvimento científico os levou a passar o limiar da mortalidade mas que perante os incontáveis eões deu o outro passo singularitário, mesclando as mentes num ser-amálgama, uma entidade que contém multidões. São-nos dados vislumbres de robots que misturam a mente viva com a positrónica (recordem-se, estes episódios de Rhodan foram escritos nos anos 60, era onde reinava a mainframe e a nossa corrente visão de mundo digital nem era sequer uma hipótese da FC mais arrojada). E é disto que os sonhos space opera são feitos.

Foi um périplo longo e divertido. Muito caminho se percorreu desde o primeiro volume em que Rhodan se despenha na lua e descobre a missão Arcónida lá encalhada. Desde o estabelecimento da terceira Potência e a sua luta pela sobrevivência. Desde a criação do exército de mutantes e as primeiras batalhas contra espécies alienígenas. Desde a primeira excursão extra-solar e o início das grandes aventuras pela galáxia. O palco está montado, as linhas orientadoras traçadas, as personagens definidas e no seu lugar. Que se inicie a ópera do espaço prometida pelos ciclos seguintes da cronologia mitográfica de Perry Rhodan.

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