quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Na Estrada de Mértola


Olinda Gil (2013). Na Estrada de Mértola. Smashwords.

O enredo deste conto remete-nos para dois sub-géneros do horror. Toda a história da rapariga que durante a noite, numa estrada isolada e coberta de nevoeiro atropela alguém mas cujo corpo depois não consegue encontrar é reminiscente de histórias de terror na estrada. Sabem do que falo. Pensem na curta A Curva do David Rebordão ou, no meu caso, estou a recordar um dos episódios da primeira temporada (a mais assumidamente creepy da série Supernatural. É a actualização para a era do automóvel da assombração clássica com a qual o incauto protagonista interage naturalmente sem suspeitar que está em presença do sobrenatural.

A meio da história estas expectativas saem goradas e a homenagem é ao cinema de exploitation que sujeita jovens e belas protagonistas às sevícias sádicas de bandos de degenerados que vivem a coberto do isolamento das zonas rurais. Se bem que Olinda Gil não se atreva a ir tão longe como Rob Zombie em House of 1000 Corpses, mas diga-se em abono do maquiavelismo inato aos fãs de horror que o final é infeliz.

Apontar estas referências não representa uma acusação de plágio. Creio antes que este conto é uma reinterpretação através da sensibilidade da autora a géneros que admira e que, convenhamos, são divertidos e infindamente replicados na literatura, comics, cinema e televisão de género. E no caso das assombrações de arrepio garantido, se a coisa for bem feita. Com o bónus de aproveitar muito bem a noção de isolamento que se sente quanto pensamos no Alentejo profundo.

Se o estilo literário necessitaria de umas afinações, a ambiência é muito bem estabelecida. Pessoalmente sinto que as frases longas interrompidas por vírgulas interferem no ritmo da leitura. Mas a construção narrativa é eficaz a criar um ambiente de horror que intriga o leitor e o obriga a ler até ao fim. Mesmo sabendo como a história previsivelmente terminará, o conto agarra-nos pela estrutura narrativa. Cá por mim, se alguma vez atropelar alguma coisa à noite nas zonas isoladas da estrada de Mértola, ali pelos lados de Alcaria, acelero. Parece que os nativos não são de confiança.

O conto está disponível em epub no Smashwords.

3 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Só por curiosidade, a estrada já foi arranjada ;)

artur coelho disse...

bolas, esta deselegância da modernidade a interferir nos espaços tenebrosos é uma chatice.

Vitor Frazão disse...

"estou a recordar um dos episódios da primeira temporada (a mais assumidamente creepy da série Supernatural". Foi o pilot, no qual eles recontam brilhantemente a clássica lenda venezuelana de La Sayona, misturando elementos de La Pucullén e La Llorona (o que não é de admirar, já que existem muitas semelhanças entre elas).