sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Leituras

In the Name of Love: Dedo no ar quem também acha uma falácia a moda moderna da paixão pelo que se faz? Ou antes, que é uma ideia que faz todo o sentido mas que está a ser desavergonhadamente aproveitada pelos oligarcas para erodir ainda mais os direitos laborais e respeito básico pelos trabalhadores? É certo que quem faz o que gosta se sente realizado noutras vertentes que não a financeira, mas como este artigo aponta e muito bem a corrente moda da ética da paixão tem como consequência, intencional ou não, uma erosão das relações laborais: "emotionally satisfying work is still work, and acknowledging it as such doesn’t undermine it in any way. Refusing to acknowledge it, on the other hand, opens the door to the most vicious exploitation and harms all workers." Outro ponto interessante está na dicotomia trabalho por gosto/trabalho por obrigação. Se aqueles que têm a sorte - ou como este artigo também recorda, o privilégio, porque o acesso não é igualitário, de trabalhar no que gostam, então como ficam as massas forçadas a trabalhar para sobreviver em tarefas repetitivas e duras? Serão meros drones sub-humanos, uma espécie de classe proletária destinada a servir as elites confortadas pelos seus sucessos emocionais? E como reagir em meios laborais onde a expectativa de se estar a fazer algo que gosta leva à imposição da obrigação de trabalhar de graça, ou para além do expectável, tendência que começa a alastrar? As pancadinhas nas costas e os elogios não pagam as contas. Na corrente investida contra os direitos laborais e sociais conquistados após duras lutas a que hoje assistimos, uma das características mais marcantes é a forma como palavras e conceitos são apropriados e deformados por aqueles que nos querem impor os retrocessos. Este conceito nobre de gosto e dedicação no que se faz tornou-se mais uma forma de retirar direitos a quem trabalha.

What If Your Autonomous Car Keeps Routing You Past Krispy Kreme?: Pode parece uma pergunta muito implausível, mas faz todo o sentido. À medida que delegamos muitas decisões simples para os sistemas suportados por algoritmos inteligentes levanta-se a questão: quem decide, realmente? Se estiver a programar um gps para achar o melhor caminho para uma viagem estou a confiar que o algoritmo da aplicação defina o percurso com base na eficiência, mas o que é que me garante que a empresa que manufactura o dispositivo não tem um acordo com outras empresas para as favorecer nos pedidos? Quanto mais automatizados e interconectados forem os dispositivos que usamos no dia a dia mais premente se torna esta questão ética. Confiamos na neutralidade automática dos algoritmos mas esquecemos que quem os concebeu pode ter outra ideia sobre o assunto. Neste artigo há uma passagem aterradora, citada de um executivo de um fabricante de automóveis a falar sobre os sistemas de gps e serviços inteligentes incluídos nos seus veículos: "We know everyone who breaks the law, we know when you’re doing it. We have GPS in your car, so we know what you're doing. By the way, we don’t supply that data to anyone." Sublinhe-se o we know what your're doing. A colheita de dados está automatizada e disponível nos servidores das empresas. Quanto à promessa de não fornecer os dados, bem, os ucranianos acabaram de descobrir o quão frágeis são essas promessas. Se, mesmo assim, pensam que este tipo de considerações pertence mais ao domínio da FC especulativa do que às possibilidades do real que se aproximam ao virar da esquina, observem que a Google está a testar um sistema de viagens de taxi gratuitas assente na obrigatoriedade de ver anúncios. A gratuitidade, baixo preço ou conveniência serão assim tão importantes para que se substitua a capacidade individual de decisão, delegada a algoritmos de transparência variável destinados a medir comportamentos e incentivar consumos?

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