quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Legs Weaver: La Città Sotto Il Mare; Toys; Ritorno a Waldur.


Antonio Serra, Simona Denna (1996). Legs Weaver #12: La Città Sotto Il Mare. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Antes que comecem a sonhar com exóticas aventuras em ruínas submersas com civilizações perdidas e misteriosos artefactos, deixem-me recordar que esta série pretendia ser futurista. Pretensões que disso não passaram, porque a iconografia estava datada à partida, a construção do mundo ficcional banalizada e a premissa assumida como policial de aventuras utilizando a FC como adereço.

Desta vez a ameaça que Legs evidentemente arruma ao canto, subjugada e cheia de mazelas, é a de um milionário que se entretém nos tempos livres como líder de um clube dedicado ao pecado. Após desenvolver tecnologias aquáticas que passam por guelras implantadas e uma cidade flutuante que o é mais de nome do que em modesto tamanho, decide roubar dois mísseis nucleares para atingir alvos específicos nas plataformas continentais que provocassem uma sequência cataclísmica capaz de submergir boa parte do continente americano. Levados pelas ondas, os cidadãos e os governos tornar-se-iam fiéis clientes das suas tecnologias, tornando o milionário ainda mais milionário com um toque de domínio do mundo. Se a premissa parece familiar é porque o é. Se não me engano, retirada do primeiro filme clássico do Super Homem, com Christopher Reeves no papel de homem de aço. E o inesquecível Gene Hackman como o milionário e aspirante a senhor do mundo com um plano de sanidade duvidosa para criar propriedades à beira mar nos desertos com o afundamento da Califórnia auxiliado por mísseis roubados. Só faltam as guelras.

Escusado será dizer que Legs e a diáfana May se infiltram na cidade, acompanhadas por dois detectives da costa oeste, um dos quais tem o seu quê de cyborg. Boa desculpa para May se passear pelas vinhetas em reveladores fatos de banho (cujo soutien se transforma numa pistola que a destreza da beldade permite montar em poucos segundos). Também uma boa desculpa para o argumentista brincar com a imagem icónica do filme Dr. Estranhoamor e meter Legs Weaver a cavalgar um míssil nuclear. Já que estamos a apontar referências, a cidade submersível tem uma curiosa semelhança extrema com a estação espacial da série Star Trek: Deep Space Nine.


Stefano Piani, Elena Pianta (1996). Legs Weaver #13: Toys. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Vista de fora, há qualquer coisa de patético em certas vertentes da cultura popular italiana. Talvez seja aquele espírito que os amantes de filmes do velho oeste convencionaram apelidar de spaghetti. Pessoalmente recordo os inenarráveis filmes de zombies, terror e pós-apocalípticos dos anos 80 e 90 que aliavam a cópia descarada dos sucessos americanos a valores de produção questionáveis e a uma curiosa aura de grotesco que lhes davam um carácter de atracção pelo repelente, fazendo ultrapassar a sua banalidade e deficiências narrativas. O mesmo se sente ao ver as obras do grande mestre Argento, cujas cores gritantes e imagética obsessiva nos atraem, levando ao perdão das tremendas incoerências dos seus filmes. Talvez porque estes traços lhes dêem um certo onirismo que se fixa nos espectadores.

No fumetti a coisa não é muito diferente. Alguns dos melhores vivem mesmo desse sentimento incoerente e levemente repelente de onirismo grotesco, como o Dylan Dog assinado por Tiziano Sclavi. Outros... enfim, fiquemo-nos pela ideia de banda desenhada spaghetti para se perceber como apesar de maus, mantém uma aura de atracção que desperta a curiosidade. Diria que é o caso da série Legs Weaver que, e lá vou eu repetir-me, podem melhor ser caracterizada como ficção científica spaghetti, com uma iconografia futurista horrivelmente datada, argumentos que misturam policial com comédia, uso e abuso de lugares-comuns sexualizantes. Note-se que há uma razão bem explícita para a heroína da série se chamar Legs, e confesso que até é isso que se espera do país que nos legou Sofia Loren e a cinematografia obcecada com formas femininas voluptuosas constrangidas por tecidos diáfanos de Tinto Brass. Tudo num estilo gráfico pesado, quase rude, oscilando entre o foco na forma feminina e o patético dos restantes personagens. E um sentido de humor grotesco que está espelhado nesta décima terceira aventura.

Legs e May, de férias, decidem auxiliar uma donzela em perigo que quer investigar o assassínio do pai, desenhador de brinquedos numa fábrica de sucesso. O pedido acaba por ser uma armadilha orquestrada por homens poderosos mas entediados que se divertem a fazer um jogo mortal, utiizando brinquedos armados para eliminar as suas vítimas. Sim, o argumento é assim tão patético e sim, há muitas cenas gratuitas de brinquedos inocentes a abrir-se para revelar implausíveis canos para potentes disparos destrutivos. Entre o lodaçal narrativo e o patético grotesco esta série é má, mas por qualquer razão que ainda não consegui identificar atrai. E não, não é pelas pernas de Legs (o quê, ainda não tinham percebido o trocadilho do título?), a esculturalidade da fiável May ou pelo futurismo glorificador dos anos 80.


Antonio Serra, Antonella Platano (1997). Legs Weaver #14: Ritorno a Waldur. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Há episódios detsa série que se distinguem por ultrapassar o marasmo narrativo simplista, e este é um deles. Antonio Serra regressa ao mundo de Waldur, mistura da mais clássica fantasia de espada e feitiçaria com FC, pois é a memória cibernética deste mundo perdido que reside, implantada, no cérebro de Weaver por um robot alienígena. Dentro da memória virtualizada vivemos aventuras de capa e espada e fora, o clássico policial FC que é apanágio da série.

Neste episódio confluem uma manifestação da memória virtual que leva Legs Weaver a regressar de sua livre vontade ao mundo de fantasia medievalista e conspirações de espionagem levadas a cabo por um grupo de militares ambiciosos. A memória virtual incrustada no cerebelo da heroína é um artefacto alienígena, bem como a nave robótica que a trouxe à terra. As promessas de tecnologias inéditas seduzem militares em busca de novas armas para os seus conflitos.

O episódio em si lê-se como uma mistura de Robert E. Howard com Asimov e William Gibson. O mundo virtual é uma amálgama fantasista de espada e feitiçaria, os militares invadem os sistemas da agência alfa utilizando as visualizações do ciberespaço popularizadas pelo filme Johnny Mnemonic e a forma de interagir com as memórias virtuais é através da transferência de consciência para um micro-robot e penetrar fisicamente no cérebro. Eclético, Serra ainda consegue dar uns toques de fantasmagoria gótica à história quando Legs leva a projecção visual da memória, de facto uma espécie de fantasma, a uma base secreta da agência alfa oculta nas tétricas ruínas de uma abadia.

Já quase me esquecia. Isto é FC spaghetti, por isso é óbvio e esperado que May tente salvar a sua amiga mas acabe capturada e aprisionada nua. Parece que os militares também sabem que a sua roupa interior pode ser montada como uma pistola miniaturizada. Aliás, nudez é coisa que não falta neste episódio, com Legs e a coronel militarista em cenas que acentuam os seus atributos, ou as vestes tão feéricas que são quase inexistentes da fantasia de Waldur. Diria que Serra toca em todas. Se não convence pela narrativa, ou pela FC, pela fantasia ou pela aventura, tomem lá mamocas e pernocas para convencer a ler a revista. Apesar destas infantilidades este número da série é uma boa surpresa, que quase faz perdoar a mediocridade do que o antecedeu.

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