quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Legs Weaver: Il Paradiso Perduto; Il Tesoro Dell'Astronave; Un'Avventura Per May.


Antonio Serra, Katia Albini (1996). Legs Weaver #09: Il Paradiso Perduto. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Rick, eterno mas frustrado apaixonado por Legs, descobre uma estranha criatura numa ilha que serve de palco a uma festa dos seus amigos da universidade. Legs e May não conseguem perceber muito bem como é que a agência Alfa acede a investigar a visão de Rick, mas ainda bem que o fazem. Sob os mares que banham a baía artifical de uma ilha paradisíaca, antigo centro de testes atómicos, esconde-se um mundo perdido, que alberga uma antiga civilização cujos elementos, após a forte radioactividade dos testes atómicos, sofreram mutações que os transformaram em criaturas míticas. Infelizmente, os donos da ilha anteciparam-se na descoberta e aprisionaram as criaturas para as explorarem como inspiração para complexos jogos tridimensionais jogados em salas que imitam os holodecks de Star Trek. Rick, claro, tinha visto uma sereia. Sendo uma aventura passada em águas salgadas, temos oportunidade de ver muitos nus explícitos de Legs e May, o que é um bom indicador de decadência da série. Se o futurismo datado ou os argumentos humoristas não estão a funcionar, nada como voluptuosos pares de seios para cativar leitores. É a redução ao mínimo denominador comum, infelizmente tão habitual nas várias vertentes da BD.


Michele Medda, Pier Gallo (1996). Legs Weaver #10: Il Tesoro Dell'Astronave. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Legs despenha-se no deserto e descobre um dos bem guardados segredos das estepes radioactivas da américa do norte. Oculta por detrás de quedas de água holográficas está a cidade de Niagara False, antro de todos vícios. Dominada por dois poderosos clãs de criminosos, a lei na cidade é mantida pelo antigo sargento da polícia que dava caça a Legs quando esta era ladra de grande estilo e ainda não membro da agência Alfa. Segundo o tema velho oeste reinventado com camelos, criminosos francófonos efeminados ou mexicanos purulentos, há um tesouro nos desertos sob a forma de uma nave lendária oculta que encerra riquezas inimagináveis. Legs consegue unir os clãs, que se aniquilam ao descobrir o segredo do tesouro da nave espacial.

O problema deste livro é ser mau em toda a linha. O humor simplista exagerado atinge níveis caricaturais, o que na estética anos 80 deste fumetti se torna algo de assustador. Demasiado histriónico, excessivamente caricatural, a saltar de linha narrativa coerente para uma colecção de vinhetas de suposta comédia.

Suponho que na minha busca por fumettis de ficção científica tenha de me ater ao clássico Gesebel ou arriscar a série Nathan Never. Só que sabendo que Legs Weaver é uma ramificação de Nathan Never a motivação para o ir ler vai diminuindo. Diga-se que nesta minha garimpagem pelos fumettis da Bonelli apenas consigo destacar Dylan Dog pela qualidade, e não em todos os que li, o que até não é inesperado numa série longa. Legs Weaver consegue ridicularizar as bases de FC de onde parte, Caravan arrasta-se pelo tédio e de Brendon é melhor nem falar. Afinal, o primeiro volume é uma excelente e surreal distopia pós-apocalíptica e o segundo decai na fantasia medievalista sem qualquer explicação plausível (ou sequer implausível). Dampyr, o caçador de vampiros, também se caracteriza por um tédio de morrer. Confesso que me surpreende como é que a casa editorial tem encontrado ao longo dos anos público para estas séries repetitivas, mal escritas e medianamente ilustradas. Talvez os irredutíveis fãs de Tex cheguem para manter a coisa a funcionar. Resta o curto ciclo de Greystorm e a brilhante ucronia de Lilith para salvar a face narrativa e visual do género. Ainda me falta descobrir a fantasia épica de Dragonero e o oculto de Gea, mas não estou com esperanças encontrar coisas interessantes.


Stefano Piani, Alberto Ostini (1996). Legs Weaver #11: Un'Avventura Per May. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

O fumetti enquanto género não é muito conceituado, e quanto mais mergulho nele mais percebo porquê. Abundam as narrativas estereotipadas e repetitivas, com sexualização e violência como iconografias principais. Há algumas obras e personagens que se destacam pela qualidade, mas são elementos pontuais num vasto mar de banda desenhada a metro. Mesmo a nível gráfico prevalece este carácter simplista. Ao contrário do comic e da bande dessiné, que misturam grafismos estereotipados com um forte pendor individualizante que dá voz e permite distinguir ilustradores, o fumetti segue uma linha gráfica muito uniforme, aspecto em que se assemelha bastante ao manga.

Este episódio particularmente mau de Legs Weaver sublinha os defeitos do fumetti. Centrado na escultal May, companheira de armas e apartamento de Legs, é essencialmente uma desculpa para passear uma personagem de seios avantajados em fatos colantes ao longo de cem páginas. O argumento é decalcado a milímetro do primeiro filme da série Die Hard, com um arranha-céus assaltado por um grupo de terroristas na noite onde May infiltra uma festa elegante para investigar rumores do desenvolvimento de tecnologias de controlo mental. É isto, em essência e pouco mais, com inúmeros ângulos gratuitos das voluptuosas e exageradas formas femininas de May. É o que se costuma apelidar de "entesa parolos".

O aspecto mais desapontador da série é a forma como trata a ficção científica. O mundo futuro e a tecnologia são meros adereços decorativos naquele que é mais um veículo para histórias de aventura policial. Mesmo nos anos 90, quando a série era publicada em força, o brutalismo plastificado das suas visões futuristas já era datado.

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