sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia, III Volume


Marcelina Leandro, Álvaro Holstein, ed. (2013). Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia, III Volume.

O fanzine Fénix tem-se afirmado pela sua periodicidade e carácter prolífico. Num ano já soma três edições, a dar voz às vozes que por cá se dedicam à literatura fantástica. Promete mais, com o lançamento regular de edições temáticas. O esforço é meritório, alimentando o gosto literário dos fãs destes géneros e possibilitando a publicação aos que desenvolvem trabalho literário, grupos quase indistinguíveis num meio tão pequeno quanto o nosso. Da leitura desta edição temática de natal percebi que se o mérito da publicação intensiva está lá, falta provavelmente dar o passo seguinte, o necessário salto qualitativo editorial. Não que esta edição seja uma desilusão. Os contos de Anton Stark, Carlos Silva, Carina Portugal, Inês Montenegro e Vítor Frazão conseguem alcançar excelentes níveis literários, o que é particularmente interessante tendo em conta a economia de páginas numa antologia de contos curtos.

Não se espera que todos os contos de antologias que dão voz aos autores novos sejam obras primas, mas nesta antologia notou-se uma fortíssima clivagem entre contos bem estruturados de linguagem narrativa polida e obras incipientes a precisar de um sério trabalho de aconselhamento editorial (e, incrivelmente, um desses trabalhos pertence a um dos editores). Desconheço que critérios utilizam na selecção dos autores, e sublinhe-se que o meio português é amador, obrigando a manter estes esforços a par de outras actividades exigentes, e mesmo assim esta equipe vai sendo prolífica. Mas creio que todos teríamos a ganhar com um trabalho de edição mais rigoroso que puxasse pelos textos com deficiências narrativas e estilísticas. Os autores pelo empurrão na melhoria das suas capacidades literárias, os editores por conseguirem um trabalho de referência, algo mais do que uma simples colectânea de histórias. E os leitores por maior diversidade e qualidade literária neste cantinho de géneros de que tanto gostamos.

Mas não confiem unicamente na minha opinião. Descarreguem e leiam a Fénix no Smashwords.

A capa tem o seu quê de Judge Christmas in Mega City 1. Tenho a sensação que o ilustrador Rui Ramos se inspirou numa possível colisão entre iconografias natalícia e 2000AD para a capa.

Biscoitos de Natal: A arrancar a antologia um conto de Alexandra Rolo com um descontraído sabor animé. O bom humor tétrico impera nesta história onde o pai natal é a prenda para manter um bem frigorífico abastecido. O estilo narrativo necessitaria de algum afinamento mas a gargalhada descomplexada para iniciar a leitura tem o seu quê de saboroso.

Um Conto de Natal: um texto difuso a tocar no incompreensível. O natal foi invadido por hordes de seres sobrenaturais? Alienígenas? Zombies? Pais Natal cthulóides? Este trabalho de Álvaro Holstein percebe-se mais como um rascunho do que conto completo.

Uma Questão de Nervos: o lado negro do natal revisto em modo de fantasia grimdark com retoque épico numa história onde a mitografia das fábricas no pólo-norte cheias de duendes sorridentes a manufacturar brinquedos para entrega pelo bonacheirão gorducho que gosta de se  vestir de vermelho é revista pelo lado da exploração capitalista pura com um tom de sensibilidade corporate. Um belíssimo esforço de Ana Luiz.

Um Último Presente: fiquei espantado com este conto de Anton Stark. Um ritmo implacável, linguagem narrativa fluída e elegante, e uma capacidade narrativa daquelas que mantém o leitor agarrado são as características estruturais que me deixaram fascinado pelo conto. A ideia em si, de um pai natal que se farta das chatices todas e decide celebrar a quadra natalícia aos tiros, está muito bem conseguida.

Frio, Cada Vez Mais Frio: outra excelente surpresa pela qualidade literária. A iconografia clássica do natal solitário da criança orfã leva neste conto de Carina Portugal um encantador tratamento tenebroso. Um conto que até aos parágrafos finais nos deixa com a sensação de que algo catastrófico ou horrendo irá acontecer, mas termina com uma deliciosa visão de ternura a condizer com o espírito da época.

Tomar a Nuvem por Juno: o toque classicista do título faz prometer mais do que realmente é dado ao leitor neste conto simples de Carlos Espargueiro, que peca por um certo tom condescendente e santimonial numa história onde o materialismo é o cavalo de tróia que possibilita uma invasão alienígena.

Natal no Abrigo: confesso que já há muito tempo que não me passava pelo radar uma obra literária inspirada naqueles medos hoje históricos do apocalipse nuclear. Este conto de Carlos Silva recordou-me isso, com uma história de ritmo bem medido que nos leva a um mundo pós-apocalíptico, onde miseráveis e consanguíneos sobrevivem num abrigo a um inverno nuclear tão intenso que o sol não passa de uma vaga memória nos mais velhos. Numa terra sem luz nem tempo, o natal é quando o homem quiser, e se o homem em questão for o patriarca degenerado de um clã de descendentes de sobreviventes pode mesmo ser todos os dias.

O Presépio: o que enfraquece o conto de Carol Louve é uma certa falta de nitidez. Sente-se que precisaria de mais algum desenvolvimento conceptual para que compreenda melhor o cerne narrativo. Percebe-se apenas que algo de transreal centrado em figuras do presépio manipula os personagens de forma sangrenta.

A Revolução Polonórtica: ou a mitografia dos duendes que se afadigam a construir brinquedos para entrega pelo patriarca barbudo revista à luz do marxismo catastrófico. O conceito do conto de Daniel Gomes é interessante e tem o seu quê de pertinente nestes dias de capitalismo autofágico selvagem alastrante, mas a linguagem carece de mais desenvolvimento.

Disfraces: A recursividade de um pai natal que findo o dia de trabalho despe o fato e se revela um homem decaído que ao regressar à solitária casa despe o fato de humano envelhecido e se revela um pai natal e... pronto, estão a ver, a coisa é cíclica e pode tender para o infinito. Ideia curiosa, remexe na vertente temática do natal enquanto espaço de solidão e mantém-se na língua nativa de Francesc Barrio.

Noite de Sonho: diálogo imaginário entre dois... duas... conceitos? Entidades? Um texto incompreensível que mistura filosofia bala com a incapacidade de chegar a conto.

O Anjo: uma bem escrita revisitação do mito judaico-cristão que sublinha a tradição natalícia. A história em si tem o seu quê de vinheta edificante saída de um catecismo, mas a capacidade narrativa de Inês Montenegro confere-lhe um belo carácter literário.

O Primeiro Natal ao Vivo e a Cores: num registo vivaz, João Rogaciano brinca com o tema natalício e um dos mais usados artifícios narrativos da ficção científica num conto onde um alienígena refugiado em Lisboa é recrutado para recuar no espaço-tempo e eliminar uma ameaça na Belém romana. Imaginem qual...

Diálogo no Pólo Norte: conto incipiente de Joel Lima, escrito de forma algo banal e que termina com um desnecessário remate.

Pinheirinho: este conto deixou-me dividido. Com um estilo narrativo promissor, arranca de forma apaixonada e coloca-nos num mundo medievo na Ibéria da reconquista. A paixão com que este início é escrito leva-nos a perdoar algumas necessidades de desenvolvimento. Mas como um conto sobre batalhas entre corsários vikings e proto-portugueses talvez não se insira no tema da colectânea, há toda uma segunda metade do conto passada num tempo contemporâneo que depressa resvala para o patético. É pena, porque a primeira metade do conto de Luís Corujo é muito promissora.

Filhós e Azevinho: um conto bem humorado onde um demónio capturado numa igreja dá um sabor diferente ao natal dos aldeões. O pormenor da linguagem coloquial sublinha o tom jocoso do conto de Manuel Mendonça.

Missão de Colonização: no conto de Marcelina Leandro o mito do génesis é revisto à luz da FC, com Adão e Eva como astronautas de uma missão de colonização planetária de longo prazo.

Noite de Surpresas: narrativa mediana em ritmo de suspense onde duendes malvados se antecipam aos elfos natalícios. Conto de Nuno Almeida.

Os Três Fantasmas: Ricardo Dias metamorfoseia lentamente a prosa clássica de Dickens na mitologia bíblica e mais além num conto onde os fantasmas de A Christmas Carol se vão revelando como arquetípicos reis magos, arautos de possibilidades.

Julgamento de Natal: um curioso conto de Rui Bastos assente no plot twist como artificio narrativo, onde um justiceiro caçador de pais natal recebe a melhor prenda que lhe poderiam dar.

Conto de Natal: se a ilustração de capa diverte e está bem conseguida, o esforço narrativo de Rui Ramos salda-se pela incoerência. É um conjunto de frases soltas e ideias incompletas que fará todo o sentido na mente do escritor, mas pouco na de quem o lê.

Santa Claus Sideral y la Gota de Oro Navideña: estão a ver aquelas iconografias cheesy de série B com pais natal, monstros marcianos, luchadores e aventuras patéticas? É este o espírito que o conto de Samir Karimo recupera.

O Último Natal: conto tocante de Vítor Frazão. A narrativa bem estruturada e a prosa ritmada constroem progressivamente um ambiente de nostalgia e perda.

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