segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Teatro Rápido: Puro Terror


O mês de novembro está a terminar mas ainda vão a tempo de apanhar as peças programadas para o Teatro Rápido deste mês. Recomenda-se. O tema é puro terror, prometendo arrepios e as quatro peças alinhadas não desiludem.

Destaca-se Memórias de um Psicopata, peça onde o actor Bruno Schiappa, num cenário austero e minimalista declama em sussurros quase monocórdicos um texto arrepiante e absolutamente fenomenal. Só a voz e as palavras são suficientes para despertar aquela sensação incómoda que caracteriza o melhor horror. Sem desprezo à experiência de imersão no espaço teatral, que é muito eficaz, gostaria de poder reler o texto em silêncio, no escuro da noite.

Reunião na Sala 3 apanha-nos de surpresa. Os actores condensaram tanta coisa em vinte frenéticos minutos que é quase impossível sintetizar por onde anda o texto. Invoca o terror clássico com criaturas maquiavélicas, puxa ao grand guignol pelo histerismo intencional, critica a correria contemporânea do empreendedorismo predador onde lucros e não a criação são preponderantes, aponta o dedo ao ridículo dos reality shows e consegue algo que francamente eu não achava possível: adaptar torture porn, género que pessoalmente não gosto, ao palco do teatro. Violento, perturbador, inquietante, e com um dos actores a canalizar na perfeição a expressão de pura maldade no rosto que nos remete para Mefistófeles, inumeráveis Igores e Crypt Keepers, ou os inesquecíveis olhares de Jack Nicholson em The Shining.

O conto clássico La Mort de Maupassant é adaptado a monólogo com uma excelente utilização de cenários e luzes. Quem conhece os espaços austeros do Teatro Rápido ficará surpreendido com a qualidade do design de luz e a simplicidade de um cenário que remete para o terror gótico dos cemitérios assombrados. Infelizmente o classicismo do texto é canalizado pelo actor que o representa, de forma hiperbólica mas pouco inspirada, muito artificial e pouco sentida. O texto de A Carta mistura terror e comédia com uma micro-sitcom onde o abrir de uma temível carta da segurança social desperta os piores medos dos personagens. Realmente, quem já teve chatices com a kafkiana máquina burocrática financeira do estado português, especializada em esmagar os mais desprotegidos, percebe o alcance do texto. Tendo lugar na maior sala do teatro, a peça sofre de uma certa desconexão espacial que nalguns momentos chave me confundiu. Não que a reconstrução do espaço teatral como algo que envolve o espectador me chateie. Mais, uma das grandes virtudes do Teatro Rápido é eliminar o paradigma espectador sentado - contempla o palco - palco onde tudo se passa atomizando o espaço cénico e transformando o espectador em elemento das peças.

A programação deste mês é boa para fãs das artes cénicas e para amantes do horror e do fantástico. Rumem ao Chiado. Vale a pena descobrir as peças, e de caminho quebrar o ar gélido destes dias de inverno com um copinho de vinho quente com especiarias. Aproveitem que o mês está a chegar ao fim.

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