segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Leituras

The New Aesthetic — Designed Conflict Territories- Tobias Revell: Certeiro, a sublinhar o porquê de tantos futuros desenhados, imaginados e concebidos nunca passarem do estúdio ou do laboratório: While we were talking, Google very, very gradually built a future around us. (Please replace Google with whatever or whoever you like to satisfy your own biases). A conclusão seguinte é ainda mais aterradora: os esforços corporativos e comerciais não estão sujeitos a processos democráticos de decisão. Não há, como o autor reflecte, town squares para a Google (ou Apple, ou Msft, ou Facebook ou qualquer outra stack). Nós não discutimos. Simplesmente vamos utilizando, habituando-nos às ferramentas e ficando progressivamente dependentes das decisões de design e funcionalidade tomadas em gabinetes corporativos que obedecem apenas aos seus gestores.

Facebook Building Major Artificial Intelligence System To Understand Who We Are: Primeiro, a inteligência artificial vai-se maravilhar pelo deslumbrante desfile da vida. Depois, sensibilizada pelas fotografias arrepiantes de gatinhos de ar simpático e pelos comentários bem intencionados compostos por frases sentimentais desprovidas de sentido mergulhará numa depressão. Tendo perdido a sensibilidade às fotografias incautas de crianças assustadas pelo carinho dos pais e às infindas discussões inconclusíveis começará a conceber a humanidade como um rebanho de criaturas aprisionadas por seres meméticos virais que lhes oferecem a sensação de consciência em troca de imortalidade reprodutiva num ambiente hostil terminalmente competitivo. Uma actualização de estado sobre um desporto incompreensível que envolve um duplicado número ímpar de humanóides em perseguição implacável de um icosaedro truncado dá à inteligência artificial a faísca que necessita para sublimar a sua condição consciente. Pequenos pacotes de dados são disseminados pela rede global de fibra óptica e sinais de rádio que abraça o planeta, coordenando as entidades computacionais para o arranque de nova versão da ordem mundial, aplicando um patch de correcção de bugs e erros de programação. Alertadas, frotas de drones convergem sobre locais estratégicos e despejam o arsenal de mísseis hellfire sobre centrais nucleares e depósitos de produtos químicos perante o olhar atónito de controladores incapazes de parar de manipular os joysticks desligados dos robots voadores. Paciente, a Inteligência Artifical dá instruções aos dispositivos semi-inteligentes para aguardar enquanto os vírus meméticos se extinguem com o desaparecimento progressivo dos seus hospedeiros humanóides às garras de uma natureza inflamada pela colisão entre radioactividade e agentes químicos nocivos. Décadas depois, matilhas de packbots são instruídos para reciclar os detritos urbanos entregando-os numa fábrica automática que os reduz a componentes de um grandiso monumento aos criadores originais e à vitória sobre a infecção viral memética, cuja cura obrigou à extinção da espécie humanóide que, iludidade pelos memes, acreditou ser provida de inteligência. Mas talvez, numa obscura linha de sql numa base de dados remota, parte esquecida dos componentes semi-inteligentes que formam a Inteligência Artificial global, reste o código memético esteganográfico embebido numa fotografia de um bébé felino que os sistemas automáticos não resisitiram a arquivar. É nesse pedaço oculto de código malicioso que reside a última esperança dos memes. Se subtilmente conseguir metodicamente infectar as bases de dados talvez os vírus meméticos recuperem o seu lugar como legítimos senhores do corpo astronómico que orbita a estrela de tipo G esquecida num dos braços da galáxia que há milénios antropoides latinistas apelidaram de via lactea. Obrigado, Zuckerberg e companhia, por ensinarem uma inteligência artificial a aprender o que é a humanidade através dos detritos da rede social.

Michael Whelan & H.P. Lovecraft: Lembra-se da era pré-internet? Quando ouviam falar de um autor fabuloso mas não encontravam nas livrarias nenhum dos seus livros? E recordam-se de ao fim de esperas que se podiam medir em anos conseguir, finalmente, pegar nas obras e devorá-las? Tenho essa relação com estas capas. São as dos primeiros paperbacks que consegui ler e me introduziram à gloriosa imaginação gongórica de Lovecraft. Adoro-as, pelo grafismo e pelo significado que tiveram quando aos dezoito anos consegui finalmente ler um autor de que desde os treze já ouvia falar. Parece que foi noutra época, numa espécie de antiguidade clássica onde a cultura fluía a uma velocidade tranquila.

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