segunda-feira, 17 de junho de 2013

Interzone #246


Esta edição da Interzone distingue-se por uma ênfase notória no lado mais literário do fantástico em detrimento da fantasia e ficção científica em estado puro. Alguns contos estão ancorados nestes géneros mas a maioria respira o intimismo do realismo fantástico literário. É curioso que nesta edição que se afasta dos cernes tradicionais do género encerre com um intrigante ensaio que questiona a validade da ficção científica como hoje a entendemos. Na perspectiva do autor, este género fossilizou em pressupostos esperados que agradam a uma faixa cada vez mais diminuta de fãs irredutíveis e, não se renovando nem reflectindo as problemáticas da contemporaneidade, perde pertinência no contexto actual. Os leitores aderem à literatura fantástica e fantasia enquanto abandonam uma literatura paradoxalmente futurista mas parada no tempo. O ensaio final talvez seja uma forma subtil dos editores justificarem as escolhas literárias para esta edição, mais centrada na ficção científica e fantástico como influência sobre obras literárias que ultrapassam os limites das definições de género. Mais realismo mágico/realidade difusa do que hard sf ou fantasia pura, e justifica-se na busca de novas fronteiras que possibilitem renovar os géneros, tornando-os tão pertinentes para a reflexão sobre a contemporaneidade como o foram noutras épocas, algo mais do que narrativas escapistas para fugir a realidades opressivas, inquietantes e incertas.

The Machinehouse Worker's Song: conto de Steven Dines onde impera a claustrofobia. Num tempo indefinido, os dois últimos operários de uma fábrica esquecida no fundo de um longo poço debatem-se com a vontade de saber o que está para lá do seu estreito mundo e o dever imposto pela habituação a rotinas ilógicas.

Triolet: registo de realismo mágico por Jess Hyslop, misturando poesia, plantas de efeitos psicotrópicos poéticos criadas por uma simpática velhinha e um casamento erodido pelas forças do tempo e das responsabilidades laborais.

Sentry Duty: um toque de hard sf neste conto de colisão cultural entre uma humana e uma criatura migratória alienígena carnívora. Interpretar os comportamentos dos outros à luz dos pressupostos culturais termina aqui com o devorar da heroína humana. Nigel Brown assina esta narrativa sólida.

The Angel At The Heart Of The Rain: narrativa intimista onde Aliette de Bodard expande um pouco do seu universo futurista de éxodo vietnamita num registo poético onde a ficção científica se encontra muito diluída.

Thesea and Astarius: Priya Sharma reconta o mito do Minotauro numa curiosa história onde Teseu é uma jovem rapariga ateniense, sobrevivente dos desejos lúbricos do rei Minos que após violar e assassinar as restantes cativas a deixa viva para ser devorada pela besta lendária. Num labirinto onde espaço e tempo se confundem, descobre que o homem-touro é uma criatura gentil e apaixonada. Ajudada por Ariadne, filha rebelde do sanguinário rei cretense, foge do labirinto com Dédalo, misto de inventor e simpático cientista louco.

The Core: Lavie Tidhar tem em Central Station um mundo ficcional sólido, tela larga para explorações literárias. O centro é um médio-oriente futuro, onde Tel-Aviv é o ponto de ancoragem do elevador orbital que liga a Terra ao sistema solar. Este mundo é-nos dado a conhecer pelo périplo da strigoi Carmel, vampira futurista que se alimenta não de sangue mas de fluxos de dados constatemente emitidos pelos humanos hiper-conectados nas omnipresentes redes digitais. Contaminada nos confúndios do sistema solar, algures entre Titã e Neptuno, atravessa o sistema solar para, desafiado proibições morais e legais, aportar à Terra original. Note-se que na obra de um escritor não anglo-saxónico que coloca o centro de um mundo ficcional em Israel o conceito de "origem" passa a ter muitas leituras possíveis. Tidhar tem vindo a explorar metodicamente o universo Central Station aproveitando a strigoi como elemento de charneira para histórias curtas que exploram um pouco de tudo, desde a desilusão com o futurismo clássico ao fascínio inocente com a literatura pulp. The Core é mais um passo na estruturação deste universo específico do autor. Desta vez, é a vampira que se torna a vítima de crianças que sugam as suas memórias e experiências digitais.

Cat World: A fuga para mundos de fantasia enquanto metáfora para a forma como o indivíduo lida com a violência trágica. Escapar para um mundo mental imaginário é o único conforto que resta a duas jovens raparigas, irmãs que vivem na rua após o desaparecimento da mãe num futuro de contornos intencionalmente difusos que nos é mostrado pelos olhos de uma criança de nove anos. Conto que consegue equilibrar inocência e violência psicológica por Georgina Bruce.

You First Meet The Devil At A Church Fete: Uma boa surpresa. Conto vencedor de um concurso literário com honras de publicação na Interzone, revisita os Beatles através de uma história sobre a vida de um dos seus músicos, que se afasta da banda antes do sucesso e prefere uma vida dedicada à pintura mas não sem antes ter uma simpática visita do diabo tentador. A premissa é sólida, se bem que pouco imaginativa, mas a prosa de Shannon Fay agarra o leitor.

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