quarta-feira, 27 de março de 2013

Manuscrito Encontrado em Saragoça




Jan Potocki (2010). Manuscrito Encontrado em Saragoça Volume 1 e Volume 2. Lisboa: Cavalo de Ferro.

Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, diz-se. No caso deste livro a tendência é mais quem conta um conto acrescenta-lhe outro, numa sucessão fractal de narrativas dentro de narrativas tão entrelaçadas que a páginas tantas o escritor cria um personagem, geómetra distraído que reduz a sua percepção do mundo a convolutas elocubrações, que reclama com a confusão de tanta história dentro de histórias. Sendo geómetra, magica um algoritmo para se manter a par das histórias que se estendem, contadas por personagens que recontam as aventuras de outros personagens numa sucessão imparável.

Um livro intrigante, que faz recordar as mil e uma noites ou os contos de canterbury, em que as histórias se sucedem de forma quase fractal acabando por regressar ao início, diria que circular mas atendendo ao espírito do livro aplicar-se-á melhor os ouroboros como qualificação. Tem um certo carácter iniciático e obscurantista. Já há um certo tempo que um livro não me absorvia tanto. Insere-se na tradição literária de viagens em que os longos caminhos são a oportunidade para os participantes partilharem histórias com os seus companheiros, similar a clássicos como Decameron ou Os Contos de Canterbury. Mas Potocki vai mais longe. A viagem em si também é uma história, périplo de intrigas e aventuras que envolvem um jovem soldado em peripécias de fantasia nos caminhos serranos da Andaluzia. Ao longo das peripécias cruza-se com outros personagens, cada um desfiando um conto pessoal que cujas personagens por si contam as suas histórias. Apesar da dispersão fractal, cheia de ramificações rizomáticas que levam a novas histórias, todas se concluem no seu início, o cumprimento do destino do jovem soldado, herdeiro de um segredo que atravessa os mundos católico e muçulmano e cujas desventuras são testes ao seu carácter, cuja superação o torna digno de partilhar os segredos financeiros e políticos dos Gomelez, reino árabe que resiste oculto nas cavernas e serranias andaluzes.

Escrito ao longo de onze anos, toque que me recorda Joyce e a sua odisseia com Ulisses, e publicado em 1813 por um nobre polaco viajante consumado pela Europa do século XVIII e apaixonado pelas espanhas, este romance surpreende pela complexa estrutura e assombrosa variedade de registos literários. Potocki oscila sem pestanejar entre romance de aventuras, conto moralista, histórias de assombrações, crítica de costumes, romance de paixões, delícias de erotismo poético, pensamentos filosóficos e uma curiosa proto-ficção científica onde se conjugam fantasias de viagens ao passado e autómatos. Manuscrito Encontrado em Saragoça é um daqueles raros livros dos quais se pode dizer que, efectivamente, encerra mundos dentro das suas páginas.

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