quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Tokyo-Ga


Se há filme que me assombra, cuja iconografia me apaixona e visões modernistas me persegue, este é o documentário Tokyo-Ga de Wim Wenders.

Mas que filme curioso é este, raridade cinematográfica que conseguiu encher a sala da Cinemateca onde foi recentemente projectado? É um documentário sobre a obra do cineasta japonês Yasujirô Ozu, que analisa a sua obra e métodos de trabalho. É um percurso pelo Japão, intrigado com a modernidade. É uma colecção de postais visuais, espelhando um orientalismo moderno, em que o exotismo da chinoiserie foi substiuído pela hipermodernidade industrial e digital, onde os motivos do japonismo da arquitectura tradicional, das plácidas amendoeiras em flor à vista do monte Fuji, do torii e das geishas são substituídos por ícones contemporâneos como o cacofónico pachinko, o urbanismo viral da megacidade ou a simulação hiperreal em plástico dos pratos da cozinha japonesa.

É composto por imagens que assombram a mente: o rapaz recalcitrante que é arrastado com bonomia pela mãe no meio da agitada lufa lufa da estação de comboio; a visão hipnotizadora das bolas de pachinko, dos jogadores de olhar fixo nas máquinas gritantes, silenciosos no meio da cacofonia; o formigueiro de automóveis nas ruas anónimas da cidade; o olhar fixo por entre a rigidez arquitectónica e o fluído ritmado dos comboios que circulam interminavelmente; as luzes nocturnas de uma cidade de alfabetos incompreensíveis. Momentos, visões fugazes, fixadas para a eternidade no celulóide.

Tokyo-Ga respira visões intimistas do Japão contemporâneo, tal como Sans Soleil de Chris Marker (que surge de relance no documentário de Wenders) ou partes de Lost In Translation de Sophia Coppola. Destes, Lost In Translation é o mais acessível ao grande público com a sua história de amores e encontros no anonimato solitário dos viajantes na megalópole, mas onde o filme realmente brilha é nas visões passageiras, postais ilustrados do olhar da realizadora sobre as curiosidades da rica procissão da vida em Tóquio. É este deambular que dá encanto ao filme, com a história de amor como uma adenda para atingir uma audiência mais abrangente. Já Sans Soleil é um diário visual de Marker que mistura exotismo, modernidade e banalidade numa tentativa muito pessoal e intimista de compreender o Japão.

Tokyo-Ga está noutra vertente. Aqui a compreensão do país está aliada à compreensão do cinema através da análise da obra e forma de trabalho de Ozu. Por entre este momentos sérios e reflexivos Wenders deixa a câmara à solta a captar o olhar aleatório sobre uma metrópole, à procura de padrões de compreensão que descodifiquem o puzzle nipónico. É uma versão erudita das banais fotografias de viagem, recordações de momentos passados noutros locais, provas de que se esteve lá, num lá distante da realidade do dia a dia. Coppola, anos mais tarde e numa cidade ainda mais hipermoderna imita Wenders em imagens que traduzem uma estética de modernidade cibernética. Imagens, fixadas no celulóide, fixadas no éter digital. Imagens que registam memórias e que, como Wender assombrosamente observa, se tornam nas próprias memórias.

A estética de Tokyo-Ga assombra as minhas memórias visuais. Sempre o fez, sempre o fará.

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