terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

John Dies At The End


David Wong (2009). John Dies At The End. Nova Iorque: Thomas Dunne Books.

Deixem-me estragar todas as surpresas: o John não morre no fim. Já este livro morre muito antes de se chegar a meio. Este é um livro incoerente, amálgama de um excelente conto, uma novela intrigante e um registo mais longo e profundamente entediante. Creio que todos já nos deparámos com contos geniais que nos levam a dizer que bom livro isto daria. John Dies at the End é um exemplo do que pode descarrilar ao expandir uma boa ideia de conto curto a livro longo. O arranque é excepcional, a primeira variante já nota algum esforço para manter o nível, e o livro final simplesmente descarrila em páginas insufladas de obesidade literária, onde o autor se esforça por manter o elevado nível de incredulidade e escrita bem humorada que caracterizam o ponto de partida para este livro onde, mal grado os esforços de muitas entidades sobrenaturais transdimensionais e drogas psicadélicas, o John não morre.

As primeiras páginas são geniais, com uma divertida brincadeira grand guignol à volta da iconografia do terror que termina com uma dose apoteótica de monstros de carnes frias e os cães que os mordiscam. É divertido, perfeitamente tongue in cheek e capaz de provocar sorrisos no mais monolítico dos leitores. É também, de acordo com David Wong, o ponto de partida de uma obra que começou como conto publicado online e graças à conquista de uma sonora base de fãs se expandiu para livro e filme, garantindo ao autor o salto dos cubículos de programação para as secretárias de websites especializados em humor.

As personagens nucleares do conto - o epónimo John que nunca chega a morrer, o narrador atribulado David, a droga psicadélica e uma cadela de poderes misteriosos são repescados em They China Food!, uma expansão do universo do conto original com uma elevada dose de incredulidade, situações absurdas e bom humor negro. O tom é apocalíptico, envolvendo uma droga capaz não de abrir mas de arrancar as portas da percepção das dobradiças, universos paralelos povoados por demónios sanguinários e os apocalípticos que os libertam. É um livro rápido e atribulado mas começa a sentir-se os limites do insuflar de um conceito de conto para novela. A sucessão de peripécias, os constantes gracejos, o contínuo elevar do nível de incredulidade começam a quebrar os limites da ideia original.

Essa quebra sente-se no livro descarrilado que é Korrok. Se no anterior os limites se faziam sentir aqui resta ao leitor uma entediante jornada por uma sucessão repetitiva de graçolas e terrores ridículos. A fórmula que funcionou tão bem no conto aqui é levada aos extremos de obesidade e o que se pretendia como leitura divertida torna-se um pântano de progresso lento.

Pelo aspecto do trailer, a adaptação cinematográfica do realizador Don Coscarelli mantém-se no primeiro livro da série. O filme é prometedor e foi o que me levou a pegar neste livro que de um arranque de altas expectativas se saldou por uma entediante desilusão. Coscarelli foi criador de algo que ainda não vi mas que com o título Bubba Ho-Tep é irresistível para a curiosidade aguçada e é conhecido pelas bizarrias fílmicas. John Dies at the End tem muitos bons pontos de partida para filmografias bizarras. Infelizmente, sofre do mal da repetição contínua que mata à nascença uma boa premissa.

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