segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ice Haven



Daniel Clowes (2005). Ice Haven. Nova Iorque: Pantheon.

O estereótipo da cidadezinha idílica norte-americana é o palco para a colisão de histórias de um grande grupo de personagens que vive isolado nos seus mundos interiores, largamente ignorantes dos laços que os unem entre si. As histórias são inconclusivas, impermanentes, fatias congeladas no tempo de momentos passageiros da vida. O tom geral é de solidão, com os personagens presos dentro das suas esferas de pensamento, com contactos geralmente insatisfatórios.

Narrada sob o ponto de vista de um aspirante a poeta local, eterno rival da vizinha do lado, poetisa com lugar garantido no jornal da terra, a história vai mudando de ponto de vista há medida que vamos mergulhando na intersecção com outras personagens: a neta da poetisa, aspirante a escritora, um rapaz da vizinhança, irmão de uma rapariga apaixonada prestes a sofrer o primeiro desaire de amor e amigo de um outro rapaz que se confessa culpado pelo desaparecimento misterioso de outra criança, que traz à cidade um casal de detectives cuja mulher é seduzida pelo polícia local. Pelo meio um coelho criminoso regressa da prisão e espalha o caos na terra e, num pormenor fortemente metaficcional, o livro é aberto e encerrado pelas palavras crípticas de um crítico de banda desenhada, capaz de ver nos mais ínfimos pormenores das vinhetas ideias sugestivas que vão muito para além do pretendido pelo autor.

Alia-se ao surrealismo hipermoderno narrativo o traço inconfundível de Clowes. Sintético e colorido, é reminiscente do estilismo dos comics populares que mistura com uma gestão austera e elegante dos elementos gráficos.

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