terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Existence



David Brin (2012). Existence. Nova Iorque: TOR.

A história contada neste livro é um disfarce ténue. Existence aparenta ser um romance de ficção científica sobre a descoberta de vida inteligente no universo, mas é um enorme infodump das ideias de David Brin sobre pós-humanismo, futurismo, hipóteses de descoberta de vida não terrestre e uma crítica acérrima ao momento contemporâneo.

Vamos por partes. Existence mergulha-nos num futuro próximo onde três linhas narrativas colidem. Um famigerado autor de ficção científica orgulha-se de uma pretensa influência ideológica sobre grupos de aristocratas e oligarcas que utilizam a sua vasta influência para instaurar uma nova ordem mundial que aniquilaria a tradição de liberdade e progresso vindas do iluminismo e restauraria as velhas ordens sociais baseadas na meritocracia elitista dos berços dourados. Nesta luta, o ideólogo que se julga peça central descobre ser um mero peão nas maquinações dos ricos e poderosos.

Noutro registo, um astronauta convertido em apanhador de lixo espacial descobre um estranho artefacto em órbita, que se revela um receptáculo de entidades alienígenas sentientes que oferecem à humanidade uma oportunidade única: imortalidade pós-humana através do construir e semear de novos artefactos pelo universo. Passado o deslumbramento inicial, depressa se percebe que o negócio é mau para a humanidade. Nenhum dos pontos de origem dos alienígenas digitalizados no artefacto aparenta manter formas de vida e depressa se conclui que a resposta à pergunta haverá vida para lá da terra se consumiu numa versão cósmica de um vírus biológico, que existe com o fim único de se propagar sem respeitar o anfitrião local. Finalmente, a chegada do artefacto começa a despertar outros artefactos, adormecidos em locais remotos do planeta ou em hibernação na cintura de asteróides. Uma batalha cósmica emerge entre os artefactos, enquanto na terra um chinês que vive de resgatar sucata das linhas costeiras submersas vive a odisseia de uma vida através de uma ligação simbiótica com um artefacto, que o leva a aventuras violentas em estados-nação libertários em ilhas do pacífico sul. Outra curiosa linha narrativa que se entrosa no arco das oligarquias mostra-nos um grupo de golfinhos inteligentes que decide adoptar um náufrago humano como utensílio para as tarefas que requerem braços e não barbatanas. Os golfinhos são o resultado de experiências de melhoramento artificial do natural, que também se traduz no renascimento de neandertais que conseguem estabelecer laços com crianças autistas.

A colisão entre as linhas narrativas é épica. A conspiração dos oligarcas quase triunfa, sendo travada por uma coligação ad-hoc de pessoas ligadas em rede que detectam a tempo e ajudam a travar as movimentações secretas. Os cientistas que analisam os artefactos acabam por perceber a cilada cósmica que estes representam, passando a entendê-los não como mensagens de outras civilizações mas como vírus semi-conscientes programados para levar a cabo instruções que poderão já se ter tornado obsoletas. Uma humanidade tecnológica fortalecida com as transferências tecnológicas adquiridas com os artefactos começa a explorar o sistema solar e a planear espalhar-se pelo universo, misturando vida física com a imortalidade digital. Chega até a testar lançar cópias dos artefactos, que levam dentro de si digitalizações das consciências dos principais personagens da história. Evitadas as catástrofes da tomada de poder por elites gananciosas e a captura por viroses cósmicas, a promessa de um futuro radioso estende-se no final deste magnífico livro.

Existence é traçado a largos riscos numa vasta tela. Traz-nos convicentes visões de futuros prováveis, onde as desigualdades sociais se agudizam, a tecnologia digital impera, a hipeconectividade é o factor determinante do progresso, o mundo é cada vez mais urbano e a pressão ecológica faz mossa na sociedade. Não é uma obra muito subtil. Brin faz questão de partilhar com os leitires enormes infodumps com as suas ideias sobre o progresso social e tecnológico, essencialmente vastos ensaios ficcionais. O elemento de crítica social simbolizado pela sede de poder de elites aristocráticas é intrigante e particularmente acutilante neste momento actual em que a crise financeira se revela uma boa desculpa para que elites esclarecidas tudo façam para reverter as recentes conquistas sociais. A ideia da resposta à questão da vida no universo como um vírus que se replica aniquilando civilizações planetárias para se propagar é algo de inédito. Sem ser um livro perfeito, deslumbra pelos vastos panoramas e inventividade conceptual com uma abrangência de tirar o fôlego. O prazer deste livro está mais no seu lado intelectual do que no literário.

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