quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Trëma #1



Rogério Ribeiro (ed.). (2012). Trëma. EuEdito.

Para terminar as leituras editadas em papel que fixam no tempo um momento particularmente activo da literatura fantástica em Portugal fica a revista Trëma, projecto literário editado pelo infatigável Rogério Ribeiro e lançada na edição de 2012 do Fórum Fantástico. Termina o papel, mas não as leituras, porque o formato electrónico está a tornar-se cada vez mais importante neste género de iniciativas.

Esta primeira edição arranca com O Vigésimo Oitavo Dia, conto claustrofóbico e implacável de Maria Ribeiro que dá o mote à capa. Ilustrada por Luís Melo num estilo reminiscente da fantasia clássica, apresenta-nos uma cena idílica desequilibrada por um toque subtil de malevolência. Rogério Ribeiro assina o editorial onde explana os objectivos ambiciosos do projecto e considerações sobre as vicissitudes do mercado editorial. Não por acaso segue-se Ana Ferreira com uma visão bem humorada sobre as tropelias das vanity presses, fenómeno que a um professor com o nariz enfiado em vértices e coordenadas cartesianas tridimensionais nas horas vagas como eu passa completamente ao lado, e francamente deixa um pouco surpreso. Ou talvez não. Em cada desejo há uma oportunidade, e como diz o ditado, a oportunidade faz o ladrão.

Uma surpresa encantadora é o conto de Carina Portugal, O Cais do Poeta, fábula sobre poesia, liberdade e espaços urbanos onde estátuas ganham vida e um sem-abrigo oscila entre o lirismo e o abandono. A proeminência do espaço urbano num texto é algo que me deixa sempre rendido, e se complementado por um voo de fantasia, melhor. A minha contribuição, com o algo pedante título de Espaços virtuais, espaços pictóricos, espaços ficcionais é uma versão alargada do que na tese de mestrado teve de se ficar por três parágrafos. Integrado em investigações sobre educação e tecnologias de realidade virtual, este artigo olha para a iconografia dos mundos virtuais tridimensionais sob a influência directa da ficção científica literária e a continuidade estética da representação imersiva e hiper-realista do real ao longo da tradição artística ocidental.

Felizmente a coisa alivia com nazis e fábulas misturadas no voo surreal que é A Bela Adormecida do Mosela por Rui Araújo, que mais do que conto do género fantástico entra nos campos do surrealismo onírico. E nazis. Que são sempre promessa de divertimento puro. João Campos no artigo O Sofisma da Ficção de Género disseca os elitismos discriminatórios patentes nas classificações de géneros literários com uma visão crítica sobre compartimentalizações baseadas em juízos de valor que reflectem distinções académicas com o seu quê de pretensioso.

A encerrar a ficção nesta revista, Luís Filipe Silva assina Na Crista da Onda, um conto de pura hard sf cujo implacável final roça a criação de mitos, partindo de uma sólida construção de mundos que nos dá vislumbres de um futuro onde a humanidade se espalha pelo sistema solar. Se me permitirem o spoiler, claro que surfar uma onda de choque termonuclear não teria resultados saudáveis.... A emergência da FC enquanto género literário em África é observada através de uma entrevista de Rogério Ribeiro ao autor e editor Ivor Hartmann, que lançou a primeira antologia de contos de FC de autores africanos. A crítica olha para um romance de Bulgakov analisado por Andreia Torres.

O projecto Trëma é ambicioso, contendo a promessa de se tornar uma referência na publicação literária do género em Portugal. É difícil não estabelecer paralelos com a britânica Interzone, embora o atingir desse patamar de solidez pela Trëma seja difícil de antever neste país. Mas a semente está lançada, e algo de interessante está a nascer.

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